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God Save the Queen

Era 1952 quando Elizabeth II assumiu o trono britânico.

Isso a Globo não mostrou. A emissora ainda não existia e até mesmo a Glória Maria tinha apenas 3 anos. Chaves também não passava na TV (ainda levaria quase 20 anos para o primeiro episódio ir ao ar). Só tinha a Hebe cantando na TV Tupi. Também nunca tínhamos saído do planeta: ainda seriam necessários 5 anos para a União Soviética lançar o Sputnik, o primeiro satélite espacial. Três dos últimos quatro primeiro ministros britânicos ainda não haviam nascido. Sérgio Mallandro também não havia nascido. Nem Vladimir Putin tinha nascido ainda. Desde que Elizabeth se tornou rainha, o Brasil teve 20 presidentes (sem contar Tancredo Neves ou a junta militar)[1]http://nrt.paulovelho.com.br/play/queen/, o mundo teve 7 papas, o SBT teve 4 Bozos. Ela inaugurou o MASP e as obras da ponte Rio-Niterói (pessoalmente, quando veio ao Brasil, em 1968).

Ela possui o reinado mais longevo do Reino Unido, superando sua tataravó Victoria.

Brexits

Pode-se dizer também que o reinado de Elizabeth II é o último do Império Britânico. Apesar de ser bem difícil definir o exato ponto que marcou o fim do Império, é difícil se opôr à afirmação de que ele não existe mais. Pode ter sido com a independência da Índia em 1947, com a retirada das tropas do canal de Suez em 1956, com a perda final de suas colônias na África, na década de 80 ou até mesmo no recente 1997, quando a bandeira do Reino Unido foi baixada em Hong Kong, em frente às câmeras.

A dissolução do império inevitavelmente faz com que a rainha detenha um outro recorde consideravelmente mais desagradável: ela é a monarca bretã que mais perdeu territórios. O Império Britânico era em 1953 cerca de 30 vezes maior do que é hoje[2]As considerações de tamanho do território não levam em consideração a porção britânica da Antartica. O continente gelado é um tema delicado e algumas leis internacionais não reconhecem a existência do território britânico antártico - que, é meio que dividido/disputado com Argetina e Chile:
O tema da divisão Antártica é complexo e delicado e, tal qual uma operação anti-corrupção brasileira, quanto mais se aprofunda nele, mais fascinante ele se torna. Honestamente ele merece um texto próprio, antes que eu acabe criando notas de rodapé dentro de notas de rodapé aqui.
[3]http://www.bbc.com/news/magazine-27910375. O Reino Unido perdeu uma área equivalente ao Brasil em territórios:

No século XIV, era dito que o sol nunca se punha no Império Britânico, como forma de exaltar o seu tamanho: sempre tinha o sol brilhando em algum lugar do império (com exceção da Irlanda, aonde o sol não brilha nunca).

Império Britânico, 1953

Hoje, tudo o que resta ao Reino Unido é uma popular ilha européia do tamanho do estado de São Paulo e um punhado de ilhotas espalhadas pelo pacífico que, juntas, são menores do que a Escócia e com uma população de menos de meio milhão de pessoas.

Império Britânico Hoje

Mas, incrivelmente, como Randall Munroe apurou em seu espetacular livro “what if?”[4]o livro foi originado de um blog cujo conceito é cópia descarada deste humilde blog (ou vice-versa, já não sei ao certo), o Sol ainda está sempre brilhando em algum lugar do império, graças às Ilhas Pitcairn - um arquipélago de 47km² (menor que Walt Disney World) e 50 habitantes (menos do que algumas ceias de natal) que fica no Pacífico Sul[5]https://what-if.xkcd.com/48/.

No total, somando-se as áreas de suas ilhotas, o Império Britânico subiria 10 posições no ranking de países por área, com 315,809 km2, ligeiramente maior que a Polônia. Já em relação à população, não haveria grandes diferenças - as ilhas britânicas de South Georgia e South Sandwich, por exemplo, têm uma população de 30 habitantes (segundo o Google, então é verdade) - sempre imaginei que haveriam mais pessoas querendo morar em um lugar chamado “sanduíche do sul”.

Mas a maioria dos países que abandonaram o império ainda fazem parte de um grupo chamado Commonwealth, formado basicamente por ex-colônias britânicas e que busca fortalecer e ajudar na construção de progresso de todos os seus membros. Para fazer parte da Commonwealth o país deve ter por base a igualdade, o respeito, a busca pela paz, e, além dessa demagogia toda, deve reconhecer Elizabeth II como Head of the Commonwealth, um tipo de CEO de uma empresa que não faz nada, mas que tem vários sócios[6]eu realmente não entendi completamente como o commonwealth funciona ou pra que serve. Honestamente, não me interessou e eu não me aprofundei; mas, uma vez que mais de dois bilhões de pessoas fazem parte do grupo, é interessante saber que ele existe:
https://www.worldatlas.com/articles/what-is-the-commonwealth.html
.

Muito além do Commonwealth, Elizabeth ainda reina como entidade máxima monárquica em diversos países.

Windsorland
Além do Reino Unido, há outros 15 países que têm Elizabeth como Rainha: Antigua e Barbuda, Australia, Bahamas[7]não esse Bahamas... , Barbados, Belize, Canadá, Grenada, Jamaica, Nova Zelândia, Papua Nova Guiné, Saint Kitts and Nevis, Santa Lucia, São Vicente e Granadinas, Ilhas Salomão e Tuvalu.

Windsorland

Apesar de não pertencer ao mesmo império, esses países compartilham o mesmo reinado, todos se submetendo às ordens reais da Rainha. Para fins purametne didáticos, chamaremos esse conjunto de países de “Windsorland”[8]A “casa de Windsor” é relativamente nova, comparada com famílias reais milenares - mais nova até do que os Orleans e Bragança, tida como “a família real brasileira” (que recentemente vieram a público sugerir a volta da monarquia como uma das soluções para o caos político nacional, coitados). Isso porque a família real inglesa tinha como sobrenome Saxe-Coburg and Gotha, uma dinastia originalmente germânica. Em 1917, por conta de um pequeno desentendimento com os alemães (popularmente conhecido como Primeira Guerra Mundial), não pegava muito bem utilizar um sobrenome germânico, então a família real inglesa trocou o seu sobrenome para algo que soasse mais britânico. Elizabeth é somente a quarta monarca da casa de Windsor, depois de seu pai, George VI; seu tio, Edward VIII e seu avô, George V..

Se considerarmos Windsorland como um único país, resultado da soma de todas as suas terras, ele seria o maior país do mundo, com 18.805.114 km² (acima da Rússia, que tem atualmente pouco mais de 17 milhões de km², mas anda trabalhando para aumentar esse número) e o décimo colocado em número de habitantes, com mais de 145,8 milhões de súditos, se posicionando entre Japão (126,5 milhões) e Rússia (146,8 milhões). Nada mal para um império que não existe mais.

Elizabeth II ainda possui uma certa dose de poder nos territórios de Windsorland. Certamente não são os poderes que os monarcas tinham no auge do absolutismo - e alguns deles soam um tanto quanto inúteis -, mas ainda assim eles seguem um pouco além da figura meramente decorativa que se espera da monarquia.

Ela tem poder suficiente, por exemplo, para formar ou destruir governos. Em junho de 2017, Theresa May foi pedir autorização à Elizabeth II para formar um novo governo na Inglaterra, uma vez que a atual primeira-ministra britânica assumiu graças à renúncia de David Cameron, em conseqüência do Brexit. A rainha jamais negaria tal pedido, pois isso seria interferir na democracia. Em 1975, porém, ela autorizou a demissão total de todo o governo australiano. Um mês depois, a Austrália teve novas eleições para substituir o governo que foi despedido pela rainha. Mesmo envolta em uma cortina de burocracia parlamentar inglesa, a rainha ainda é um pouco mais do que uma simples peça decorativa pra inglês ver. Um poder político bem maior é o de aprovar ou vetar leis; mais precisamente toda lei que envolva a monarquia precisa ser aprovada pela rainha. Em 1999, Elizabeth vetou uma lei que transferia o poder de autorizar o lançamento de mísseis contra o Iraque da monarquia para o parlamento[9]tá aqui uma lista de leis que tiveram que ser autorizadas pela família real: https://www.theguardian.com/uk/2013/jan/14/secret-papers-royals-veto-bills.

Apesar de todas suas ações políticas serem movidas por ministros, ainda assim há brechas: ela pode ignorar ou ir contrário às recomendações ministeriais se considerar que o país está em uma “grave crise constitucional”, o que é um estado altamente relativo (certamente os Orleans e Bragança já teriam agido no Brasil se tivessem essa brecha).

Mas os poderes de Elizabeth II não se limitam à política:
Ela tem o poder de criar lordes, que ganham a liberdade de tomar um assento no andar superior do parlamento inglês. Por conta dessa importância, esse poder é só usado sob o aconselhamento de seus ministros. Mais flexível é a habilidade de criar cavaleiros, que, como recompensa, ganham o divertido título de "sir"[10]Jerry Seinfeld têm um texto de stand-up incrível numa apresentação que ele fez em algum evento com Barack Obama e Paul McCartney na platéia. Em certo momento, ele falou sobre o ex-beatle:
“He’s a sir. And not as ‘I’m sorry, sir, there’s no more compact cars available...’, he’s a real sir. When Paul McCartney steps up to the enterprise counter and they go ‘yes, sir, can I help you?’, they mean it!”
https://www.youtube.com/watch?v=SzpVE5ixAG8
[11]ainda assim, “sir” não é um título monárquico tão legal quanto aquele eu particularmente ocupo: barão do principado de Sealand.. Também a criação de cavaleiros é feita sob recomendação de ministros, mas com a aprovação final da rainha - o que iria contra a minha idéia de sair na rua criando lordes aleatoriamente (“Aqui seu troco”, “obrigado, senhor. Agora você é um lorde”). Ela também ainda tem o poder do perdão, salvando condenados da forca, se eles ainda fossem enforcados.

A mais desejada vantagem de ser uma rainha talvez seja a isenção de impostos: É difícil imaginar Elizabeth fazendo seu imposto de renda - e ela realmente não precisa fazer. Mesmo assim, como um gesto de bom grado, desde 1992 ela paga seus impostos - um recolhimento de quase £10 milhões por ano [12] é imposto pra caceta:
http://metro.co.uk/2017/11/06/does-the-queen-pay-taxes-and-how-much-does-it-cost-her-7056752/
.

Também de extrema utilidade é a incapacidade de receber processos: em teoria, a realeza seria “incapaz de pensar em fazer algo errado” - uma imunidade altamente questionável. Assim, apesar do ditado que ninguém está acima da lei, a rainha está: ela não pode ser julgada ou ser chamada para depôr em tribunais - e por isso mesmo, de acordo com a própria realeza britânica, os monarcas redobram seus cuidados para não fazerem nenhuma ação que vá contra as leis.

A rainha também não precisa de passaporte[13]o que me faz lembrar que os presidentes precisam, o que me diverte imaginar o Lula tendo que ir na PF pra renovar o dele e nem de carteira de motorista - é notório, aliás, que Elizabeth II é uma exímia motorista: ela atuou como motorista de ambulância durante a Segunda Guerra Mundial e, se preciso, é capaz até de fazer pequenos consertos e chupetas reais.

Elizabeth II têm dois aniversários: O “real” (no sentido de verdadeiro) e o “real” (no sentido de monárquico). Sua data de nascimento é 21 de abril, mas o aniversário é geralmente comemorado em algum sábado de junho. Como o pessoal de sangue azul nem sempre segue o saudável hábito de nascer no verão, culturalmente criou-se o costume de celebrar os aniversários monárquicos em algum outro dia que não o do nascimento. Ainda assim, Elizabeth celebra ambos.

E não deve ser fácil pensar num presente bom: entre as notórias posses da rainha, são dela todos os cisnes do Tâmisa (o que, por algum motivo, é um fato notório para todo mundo que já morou em Londres) e também tem sob seu domínio todos os golfinhos e baleias das águas costeiras britânicas. Até escrever um cartão de aniversário seria um problema, já que ela deve estar acostumada com termos rebuscados e prolixos - conseqüência provável de ter seu poeta particular: o cargo é geralmente ocupado por algum escritor cujo trabalho seja de importância nacional e o escolhido recebe como pagamento um barril de Sherry[14]Carol Ann Duffy é a atual poetisa particular da rainha e ficará no cargo até 2019..

Lógico que sempre há a chance de dar um envelope de dinheiro - apesar de não ser realmente preciso: além de ter uma fortuna estimada em cerca de £425 milhões de libras[15]dados de 2016: http://fortune.com/2016/04/21/tqueen-elizabeth-birthday-net-worth/, ela possui no porão do palácio de Buckingham seu ATM particular. Isso sem contar que a fuça real está presente em todas as notas de libra em circulação, portanto, no fundo, ela paga o mercadinho com fotos de si mesma[16]Há uma piada recorrente em clubes de stand-up ingleses de que deve ser terrível ser o príncipe William e, toda vez que vai em um strip-club, colocar fotos da própria avó nas calcinhas das dançarinas..

Se eu cair, portanto na difícil missão de dar um presente de aniversário para a rainha, provavelmente escolheria algo como sandálias de pneu. O que, curiosamente, não seria a coisa mais estranha que a rainha recebe.

O Duque de Atholl[17]Atualmente: Bruce Murray
https://en.wikipedia.org/wiki/Bruce_Murray,_12th_Duke_of_Atholl
deve dar uma rosa à rainha toda vez que ela pedir (a última que pediu foi a Rainha Victoria). Já o Marquês de Ailesbury[18]Atualmente: Michael Brudenell
https://en.wikipedia.org/wiki/Michael_Brudenell-Bruce,_8th_Marquess_of_Ailesbury
detém controle sobre os territórios da floresta de Savernake e deve soprar uma corneta de caça toda vez que a rainha passar por seus territórios (a última vez que isso aconteceu foi em 1943). A cidade de Gloucester deve pagar à rainha todo ano uma torta de enguia[19]eles mandam a cada jubileu da rainha, mas recentemente, devido à escassez do peixe em águas inglesas, eles importam as enguias do Canadá.
http://www.bbc.com/news/uk-england-gloucestershire-34187086
. Em 13 de agosto, o Duque de Marlborough[20]Atualmente: James Spencer-Churchill
https://en.wikipedia.org/wiki/James_Spencer-Churchill,_12th_Duke_of_Marlborough
deve presentear a rainha com uma bandeira contendo uma flor de lis, em memória à batalha de Blenheim e o Duque de Wellington[21]Atualmente: Charles Wellesley
https://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Wellesley,_9th_Duke_of_Wellington
deve apresentar uma bandeira francesa antes do meio-dia de cada 19 de junho, aniversário da Batalha de Waterloo. E quem quer que seja o proprietário do Foulis Castle[22] Atualmente: Clan Munro
https://en.wikipedia.org/wiki/Clan_Munro
deve ser capaz de providenciar à rainha uma bola de neve em pleno verão, se ela assim solicitar (ela nunca solicitou, infelizmente).

London Bridge is down

Em algum momento no futuro, até mesmo a rainha morrerá. Provavelmente depois de mim, mas essa hora chegará a todos (menos ao Silvio Santos). As 88 listas do Bolão Pé na Cova[23]o Bolão Pé na Cova é o maior bolão de apostas em mortes de celebridades do mundo, mesmo que o Guinness Book não queira aceitar meu recorde. http://bolaopenacova.com/ que contém seu nome este ano deixam a impressão que esse momento não tardará a chegar.

O secretário particular da rainha, Sir Christopher Geidt, telefonará para a primeira-ministra (ou o primeiro ministro - quem quer que esteja no cargo, já que é possível que Theresa May deixe o mandato antes da rainha bater as botas; aliás, temos que também pensar na possibilidade do secretário, hoje com 56 anos, morrer antes da rainha) e passará o código “London Bridge is Down”[24]..que já deve ter mudado depois que o The Guardian publicou seu extenso e excelente artigo sobre o assunto. Não faz sentido usar um código se todo mundo sabe dele.. O governo britânico passará a notícia inicialmente para todos os 36 territórios que fazem parte da nossa fictícia Windsorland. A notícia chegará rápido para a população - pelo menos, mais rápido do que da última vez: quando George VI empacotou, o plano “Hyde Park” foi colocado em prática e a notícia só chegou a público quatro horas após o obituário. Não só será mais rápido, mas também será em um mundo novo: todas as rádios que atuam na Inglaterra ficam sabendo do falecimento com um tempo de preparação para que possam definir o clima do povo para o recebimento das notícias - elas possuem, por exemplo, uma playlist para ir lentamente alterando as músicas para uma pegada mais triste. O spotify, entretanto continuará o mesmo.

Os nove dias seguintes serão de luto, funerais e rituais milenares de transição. Por todo o país, bandeiras cairão e sinos badalarão[25]taí um verbo legal. O sino de Sebastopol será novamente tocado: ele só é batido na ocasião da morte de um rei, tendo soado 56 vezes em 1952, das 13h27 às 14h22, uma badalada para cada ano de vida de George VI. Taí um sino que vai ser bem gasto em breve. No quarto dia após sua morte, seu caixão será colocado em Westminster e uma fila para visitação pública se formará para inundar a internet com o maior número de selfies com um cadáver que a história já viu.
Acredita-se que a organização do funeral real[26]não sei por que eles não chamam oficialmente de Funeroyal se reuniu pela primeira vez antes de 1960 e, mais recentemente, fazem duas ou três reuniões anuais para atualizar os planos. Mas a rainha insiste em continuar viva.

Na primeira noite após ela empacotar, os sucessores reais serão apresentados. Antes de começar os trabalhos de pesquisa para este artigo, eu acreditava que Charles poderia renunciar para que seu filho William assumisse o trono. A lógica é que Charles é feio, entediante e impopular, principalmente depois do divórcio da eterna-princesa Diana. Já William é carismático, galã[27]ao lado de Ed Sheeran e Johnny Depp, príncipe William encabeça a deliciosa categoria dos galãs feios e mais querido pelo povo inglês. Além de Kate Middleton ser também mais querida e carismática do que Camilla. Mas seria extremamente difícil que Charles abdique: ele está há 66 anos como próximo da fila para ser rei - mais do que qualquer outra pessoa já ficou e, atualmente com 69 anos, ele seria o mais velho monarca britânico a assumir o trono.

Charles fará um discurso e os trompetistas reais sairão no balcão do Palácio de Buckingham e soarão suas trombetas. O Garter King of Arms[28]eu não sei como traduzir este termo[29]O atual Garter King of Arms é um genealogista chamado Thomas Woodcock. O salário dele é de £49,07 e não é aumentado desde a década de 1830. Não deixa seu chefe saber disso, vai tirar qualquer pretexto que você tenha para pedir um aumento. dará a primeira trombetada, iniciando a cerimônia de proclamação do novo Rei Charles[30]não confundir com Ray Charles. A pedra do destino será trazida novamente de Edinburgo, colocada debaixo do trono da Abadia de Westminster e o novo monarca britânico será coroado.

Apesar de ser próximo rei, o cargo Head of the Commonwealth não é hereditário e ninguém sabe exatamente como eleger o próximo chefão. A figura emblemática da rainha pode ser o que tenha segurado o Commonwealth e mantido Windsorland tão grande até o momento. Assim, o novo rei já pode começar o reinado perdendo mais e mais terras: a Austrália já expressou publicamente um desejo imenso de se tornar uma república. É bem provável que a morte da rainha seja o empurrão definitivo para uma troca de governo. Se o Brexit realmente for pra frente, é também extremamente provável que Escócia e Irlanda do Norte abandonem o Reino Unido em um futuro próximo. E, como se não fosse o bastante, a ilha de Tuvalu deverá afundar no meio do Pacífico nos próximos 30 a 50 anos[31]pobre Tuvalu: https://uk.reuters.com/article/environment-tuvalu-dc/tuvalu-about-to-disappear-into-the-ocean-idUKSEO11194920070913. A tendência de Windsorland é somente diminuir cada vez mais.

E, mesmo terminando seu reinado com um pentelhésimo do território com a qual começou e sem poder realmente continuar chamando de império, não há dúvidas que Elizabeth será lembrada na história como uma grande rainha.

God save the queen.

Fontes e referências   [ + ]

1. http://nrt.paulovelho.com.br/play/queen/
2. As considerações de tamanho do território não levam em consideração a porção britânica da Antartica. O continente gelado é um tema delicado e algumas leis internacionais não reconhecem a existência do território britânico antártico - que, é meio que dividido/disputado com Argetina e Chile:
O tema da divisão Antártica é complexo e delicado e, tal qual uma operação anti-corrupção brasileira, quanto mais se aprofunda nele, mais fascinante ele se torna. Honestamente ele merece um texto próprio, antes que eu acabe criando notas de rodapé dentro de notas de rodapé aqui.
3. http://www.bbc.com/news/magazine-27910375
4. o livro foi originado de um blog cujo conceito é cópia descarada deste humilde blog (ou vice-versa, já não sei ao certo)
5. https://what-if.xkcd.com/48/
6. eu realmente não entendi completamente como o commonwealth funciona ou pra que serve. Honestamente, não me interessou e eu não me aprofundei; mas, uma vez que mais de dois bilhões de pessoas fazem parte do grupo, é interessante saber que ele existe:
https://www.worldatlas.com/articles/what-is-the-commonwealth.html
7. não esse Bahamas...
8. A “casa de Windsor” é relativamente nova, comparada com famílias reais milenares - mais nova até do que os Orleans e Bragança, tida como “a família real brasileira” (que recentemente vieram a público sugerir a volta da monarquia como uma das soluções para o caos político nacional, coitados). Isso porque a família real inglesa tinha como sobrenome Saxe-Coburg and Gotha, uma dinastia originalmente germânica. Em 1917, por conta de um pequeno desentendimento com os alemães (popularmente conhecido como Primeira Guerra Mundial), não pegava muito bem utilizar um sobrenome germânico, então a família real inglesa trocou o seu sobrenome para algo que soasse mais britânico. Elizabeth é somente a quarta monarca da casa de Windsor, depois de seu pai, George VI; seu tio, Edward VIII e seu avô, George V.
9. tá aqui uma lista de leis que tiveram que ser autorizadas pela família real: https://www.theguardian.com/uk/2013/jan/14/secret-papers-royals-veto-bills
10. Jerry Seinfeld têm um texto de stand-up incrível numa apresentação que ele fez em algum evento com Barack Obama e Paul McCartney na platéia. Em certo momento, ele falou sobre o ex-beatle:
“He’s a sir. And not as ‘I’m sorry, sir, there’s no more compact cars available...’, he’s a real sir. When Paul McCartney steps up to the enterprise counter and they go ‘yes, sir, can I help you?’, they mean it!”
https://www.youtube.com/watch?v=SzpVE5ixAG8
11. ainda assim, “sir” não é um título monárquico tão legal quanto aquele eu particularmente ocupo: barão do principado de Sealand.
12. é imposto pra caceta:
http://metro.co.uk/2017/11/06/does-the-queen-pay-taxes-and-how-much-does-it-cost-her-7056752/
13. o que me faz lembrar que os presidentes precisam, o que me diverte imaginar o Lula tendo que ir na PF pra renovar o dele
14. Carol Ann Duffy é a atual poetisa particular da rainha e ficará no cargo até 2019.
15. dados de 2016: http://fortune.com/2016/04/21/tqueen-elizabeth-birthday-net-worth/
16. Há uma piada recorrente em clubes de stand-up ingleses de que deve ser terrível ser o príncipe William e, toda vez que vai em um strip-club, colocar fotos da própria avó nas calcinhas das dançarinas.
17. Atualmente: Bruce Murray
https://en.wikipedia.org/wiki/Bruce_Murray,_12th_Duke_of_Atholl
18. Atualmente: Michael Brudenell
https://en.wikipedia.org/wiki/Michael_Brudenell-Bruce,_8th_Marquess_of_Ailesbury
19. eles mandam a cada jubileu da rainha, mas recentemente, devido à escassez do peixe em águas inglesas, eles importam as enguias do Canadá.
http://www.bbc.com/news/uk-england-gloucestershire-34187086
20. Atualmente: James Spencer-Churchill
https://en.wikipedia.org/wiki/James_Spencer-Churchill,_12th_Duke_of_Marlborough
21. Atualmente: Charles Wellesley
https://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Wellesley,_9th_Duke_of_Wellington
22. Atualmente: Clan Munro
https://en.wikipedia.org/wiki/Clan_Munro
23. o Bolão Pé na Cova é o maior bolão de apostas em mortes de celebridades do mundo, mesmo que o Guinness Book não queira aceitar meu recorde. http://bolaopenacova.com/
24. ..que já deve ter mudado depois que o The Guardian publicou seu extenso e excelente artigo sobre o assunto. Não faz sentido usar um código se todo mundo sabe dele.
25. taí um verbo legal
26. não sei por que eles não chamam oficialmente de Funeroyal
27. ao lado de Ed Sheeran e Johnny Depp, príncipe William encabeça a deliciosa categoria dos galãs feios
28. eu não sei como traduzir este termo
29. O atual Garter King of Arms é um genealogista chamado Thomas Woodcock. O salário dele é de £49,07 e não é aumentado desde a década de 1830. Não deixa seu chefe saber disso, vai tirar qualquer pretexto que você tenha para pedir um aumento.
30. não confundir com Ray Charles
31. pobre Tuvalu: https://uk.reuters.com/article/environment-tuvalu-dc/tuvalu-about-to-disappear-into-the-ocean-idUKSEO11194920070913
32. https://www.townandcountrymag.com/society/tradition/a10021776/prince-charles-name-change-king/
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Bora pra Marte

No dia 06 de fevereiro de 2018, um foguete decolou de um fiapo de terra escorrendo da Flórida. A carga do foguete continha um carro esporte conversível com um boneco no banco do motorista - convenientemente apelidado de Starman - encarando com alegria a vastidão do Universo à sua frente, uma mão no volante, o braço apoiado na lateral do carro, a tela do veículo exibindo a mensagem "Don't Panic", eternizada dos livros de Douglas Adams, trazendo visível tranqüilidade ao Starman e um alento à toda a humanidade.

O destino do carro era nenhum outro senão Marte[1]eu sei, eu sei… o destino nunca foi Marte em si, mas a idéia era resvalar na órbita marciana (sem entrar nela, inclusive).
Como a intenção do lançamento era testar o foguete e não o movimento de um conversível pelo espaço, pouca atenção foi dada ao propulsor do carro (acionado na hora de sair da órbita terrestre), que queimou um pouco mais do que devia e vai passar um pouco mais longe de Marte do que se imaginava.
O destino do carro é incerto ainda, mas ele provavelmente seguirá até o cinturão de asteróides e seguirá viajando indefinidamente pelo espaço até ser fatalmente esmagado por um asteróide. Tal qual a Terra.
. Nosso interesse por Marte não é à toa: dentre os oito planetas de nosso Sistema Solar (tá na hora de você superar o nosso relacionamento com Plutão, se você ainda não superou), temos gigantescas bolas de gelo com temperaturas abaixo de 200ºC, bolas de gás venenoso com tempestades que nunca terminam e, apenas quatro planetas rochosos: Mercúrio, Vênus, Terra e Marte.

Marte não é o planeta mais próximo da Terra. Esse posto fica com Vênus. Porém as condições lá não são muito boas: a temperatura pode chegar a 400ºC, a pressão atmosférica é 92 vezes a pressão terrestre e o ar é composto 96% por dióxido de carbono. Tudo isso torna o planeta muito parecido com o trânsito do Rio de Janeiro, então a humanidade perdeu o interesse por ele.

Mercúrio não só é ligeiramente mais distante do que Marte como também é menor e a temperatura varia entre 427ºC no sol e -173ºC na sombra. Ele também fica perto demais do Sol, o que exigiria uso de filtro solar de fator de proteção 200, encarecendo consideravelmente o custo da viagem.

Não é à toa que Marte se transformou na queridinha de todos os planos de exploração, colonização e conquista espacial: a adaptação às condições do planeta vermelho são extremamente propícias para nós, humanos: a temperatura varia entre 20ºC e -130ºC (ah, mas em Curitiba…); há sol suficiente para usarmos energia solar; ele possui uma leve atmosfera que pode proteger os colonos da radiação solar; tudo indica que é possível extrair água do solo; a gravidade é 38% da gravidade terrestre, o que significa que todo mundo em Marte perde peso, mas não tanto a ponto de ficar difícil a adaptação; e os dias possuem uma duração muito parecida com os dias na Terra, mas com 40 minutos a mais, justamente aqueles quarenta minutos que você sempre alega não ter para ir na academia.

Bora pra Marte então.

As grandes navegações

O termo "colonização" usado para se referir às atuais ambições humanas com Marte não é um exagero: a idéia por trás do Mars One[2]http://www.mars-one.com/ não é só enviar humanos para outro planeta mas também estabelecer uma comunidade por lá. É transformar a espécie humana em uma raça multi-planetária. E fazer tudo isso nesta geração.

A NASA tem planos para enviar os primeiros galegos em 2030. A SpaceX, como não é uma agência governamental e não fica empacada nas burocracias políticas, tem planos mais ousados: 2025 seria a primeira viagem. Em menos de uma década estaremos pisando em outro planeta. Isso é empolgante, é excitante. É a natureza humana de exploradores aflorando outra vez. É como estar novamente na época das Grandes Navegações, quando exploradores destemidos saíram do conforto de suas terras em busca de tempero, rumo ao desconhecido, com o risco de não mais voltar.

A última vez que a humanidade esteve tão empolgada com o espaço foi no final da década de 60, no auge da Corrida Espacial, quando pisamos na lua.[3]vale muito ler tudo do Tim Urban: https://waitbutwhy.com/2015/08/how-and-why-spacex-will-colonize-mars.html Por mais que o avanço científico desse feito seja evidente, é possível dizer que a motivação foi política. O que move as expedições atuais é pura ciência. O objetivo atual da comunidade espacial é algo fará a chegada do homem à lua parecer o equivalente ao que um mergulho nas águas do Tejo é para as Grandes Navegações.

Comparando com Marte, a lua é aqui do lado, seguindo ali por trás de Santana.

Marte é longe.

Quão Longe?

Calcular a distância entre Terra e Marte é que nem calcular a distância entre Bruna Marquezine e Neymar: relativamente, os dois ficam muito próximos durante um determinado período para depois se distanciar enormemente e, num ciclo de alguns meses depois, se aproximarem de novo. A janela de proximidade ocorre aproximadamente a cada 26 meses - tanto do Neymar e da Bruna quanto da Terra e Marte.
A distância média fica em torno de 225 milhões de quilômetros[4]https://www.space.com/16875-how-far-away-is-mars.html, mas como ambos os corpos possuem movimentos de translação distintos, esse valor pode chegar a mais de 400 milhões de quilômetros. Entretanto, quando a janela de proximidade se abre (a cada 26 meses mais ou menos), essa distância se reduz drasticamente, chegando a aproximadamente 55 milhões de quilômetros. Durante esse intervalo, o tempo de viagem entre Terra e Marte diminui consideravelmente, e, com a tecnologia atual, é possível chegar no planeta vermelho em cerca de três meses. Desnecessário dizer que é durante essa aproximação que a maioria das viagens para Marte são e continuarão sendo lançadas.

2018 é um desses anos. Marte está próxima e a NASA vai aproveitar o momento para enviar mais um de seus robôs de reconhecimento no planeta: o Insight.[5]https://mars.nasa.gov/insight/ Com lançamento atualmente agendado para 5 de maio, a expectativa é que ela chegue em Marte cerca de seis meses depois, em novembro - um peido em proporções espaciais. A Juno, por exemplo, foi lançada em Agosto de 2011 e só chegou ao seu destino em Julho de 2016, quase cinco anos depois.[6]https://www.nasa.gov/mission_pages/juno/main/index.html\
Juno foi(é/está sendo) uma missão da NASA com o objetivo de estudar Júpiter.
Pra ter uma idéia de quão longe é Júpiter, segue a animação com a trajetória da spacecraft:
https://www.youtube.com/watch?v=sYp5p2oL51g

Os planos iniciais de Elon Musk para a SpaceX eram de aproveitar a janela de 2018 para enviar as primeiras Red Dragon[7]As red-dragons, apesar de serem planejadas para estarem prontas este ano, fracassaram em conceito. As dragon, entretanto, são uma realidade:
http://www.spacex.com/dragon
Para ocupar o lugar das Red dragon nas missões marcianas e em nossos corações, uma nova spacecraft, maior e mais legalzona estaria já sendo planejada.
, mas recentemente ele teve que admitir que, sim, tal qual minha idéia de marcar um casamento com a Fernanda Paes Leme até o meio do ano passado, os planos dele também eram ambiciosos demais e a expectativa agora é usar a janela de outubro de 2020 para mandar as primeiras cápsulas-teste para Marte. Depois de outubro de 2020, as janelas se abrem em Dezembro de 2022 e, finalmente em Janeiro de 2025. Para a janela de 2025, Musk promete que uma missão tripulada será enviada, e nessa missão estariam os primeiros homens (e mulheres) a pisar em um outro planeta.

Já meus planos para um relacionamento feliz e duradouro com a Fernanda Paes Leme foram adiados por tempo indefinido.

Pé na Estrada

É difícil para a mente humana, acostumada com parâmetros de distância de, no máximo, algumas centenas de quilômetros, conceber o valor de 55 milhões de quilômetros. Como parâmetro de comparação, a maior estrada do Brasil é a BR-116, que liga Fortaleza, Ceará ao Uruguai. Os moradores de São Paulo conhecem essa rodovia por outros nomes: ela chega na cidade com o nome de Rodovia Presidente Dutra e sai da cidade com o nome de Régis Bittencourt. No total, a BR-116 possui cerca de 4.516km.[8]https://pt.wikipedia.org/wiki/BR-116
Mesmo se juntarmos todas as estradas dos Estados Unidos, incluindo ruas, rodovias e trilhas não-pavimentadas, teríamos "só" 6.58 milhões de km.[9]http://www.roadtraffic-technology.com/features/featurethe-worlds-biggest-road-networks-4159235/

Para tentar passar uma ínfima idéia do que representam 55 milhões de quilômetros e do tipo de vastidão tediosa que compõem o Universo, imagine três carros:

O primeiro carro está em Pelotas, no Rio Grande do Sul. É um VW Golf verde, levando uma família tipicamente brasileira: mãe, pai e um casal de filhos. O pai é conservador, a mãe não se interessa por política, o filho (mais novo) tá entretido no iPad e a filha mais velha tem um viés esquerdista. Eles vão pra Belém.

O segundo carro está em Lisboa, Portugal. São dois casais de jovens, na casa dos 20, em uma eurotrip. Como eles não tinham dinheiro, o único carro que conseguiram alugar era um Fiat 500 branco que agora eles percebem que é minúsculo demais para quatro passageiros e seis malas. A idéia deles é passar pelo maior número de capitais européias da forma mais rápida e direta possível. Saindo de Lisboa eles seguem para Madrid, Paris, Bruxelas, Amsterdam, Berlim, Varsóvia, Minsk e terminam em Moscou, ambicionando chegar a tempo da Copa.

O terceiro carro está no Cabo Canaveral na Flórida. De alguma forma incrível, a humanidade construiu uma rodovia asfaltada ligando a Flórida à Marte. A estrada parte de um ângulo de 90 graus com a Terra e segue reta, sem pedágios, até Marte. O carro é um Tesla Roadster e, dirigindo ele, está um boneco sem sentimentos, sem necessidades biológicas e/ou fisiológicas, que só quer chegar logo em Marte para jogar pôker com o Matt Damon.

Os três carros saem ao mesmo tempo e seguem na velocidade de 100km/h.

As primeiras quatro horas.

No Rio Grande do Sul, eles chegam em Porto Alegre. As crianças estão entediadas já. O garoto começa a olhar com preocupação a bateria do seu iPad e sugere parar em algum lugar pra carregar um pouco a bateria do aparelho. A irmã reclama, diz que é uma viagem muito longa pra se fazer com a família. Eles cruzam a capital gaúcha apreciando suas atrações turísticas: o Rio Guaiba (que eles descobriram tarde demais que não possui nascente, então é um lago, mas como todo mundo já tinha chamado de "rio", então eles tiveram que batizar o lago como "Lago Rio Guaiba"), o estádio do Internacional "Beira Rio" (que não beira um rio. beira um lago), a Gruta Azul, a Tia Carmem…

Se eles nem saíram do estado no Brasil, na Europa, eles já mudaram de país: Depois de duas horas de eurotrip eles já cruzaram a fronteira com a Espanha. As placas apontam que faltam pouco mais de 100km para chegarem em Madrid. Alguém sugere desviar para Toledo para comprar facas, mas ninguém sabe direito quem foi porque todo mundo está soterrado por malas no carro.

Já o Tesla segue indo pra cima. Com um pouco mais de 5 minutos de viagem ele está mais alto do que o Everest. Com 9 minutos de viagem pra cima, ele já está mais alto do que qualquer avião comercial consegue voar.

Aos 23 minutos de viagem para cima, o Tesla já percorreu 39km. Uma placa na rodovia indica que foi naquela altitude que Felix Baumgartner realizou o maior salto em direção ao chão que o homem já fez.[10]Não canso de ver: https://www.youtube.com/watch?v=FHtvDA0W34I Logo depois desse marco, o Tesla entra na "mesosfera", uma das últimas camadas da atmosfera terrestre, aonde a temperatura pode chegar a até -90ºC.

Com 100km, o carro chega na "termosfera", e a temperatura volta a esquentar. O carro vai passar um tempo ainda na termosfera, já que essa camada termina em uma altitude que pode variar entre 500km e 1000km de altura. Mas aqui as coisas começam a ficar mais interessantes: não há nuvens, mas se o boneco for sortudo, é na termosfera que ele vai ver a Aurora. Aos 215km fica outro ponto histórico: é a altura de órbita do Sputnik, o primeiro satélite criado pelo homem. É por volta dessa altura também que a Vostok 1 fez sua órbita, carregando o russo Yuri Gagarin, primeiro homem a ir para o espaço.[11]http://www.esa.int/About_Us/Welcome_to_ESA/ESA_history/50_years_of_humans_in_space/The_flight_of_Vostok_1 Tecnicamente então, o Tesla já está no espaço.

Entre 330km e 450km de altitude, é onde ele vai encontrar o primeiro (e último, espero) resquício de vida humana da viagem: é nessa altura que viaja a ISS, que está sempre habitada por pelo menos três tontos. A International Space Station é pouco comentada, comparada com a sua importância: logo ali na órbita terrestre, tão perto que é possível vê-la a olho nu, a humanidade estabeleceu uma moradia rotatória.[12]Uma vez, num encontro de astrônomos, me ensinaram a ver a ISS. Precisa ser logo no começo do dia ou no final, quando o sol não atrapalha, mas seus raios ainda brilham no céu. Há diversos apps para celular que monitoram o posicionamento de satélites, como por exemplo, o Starwalk. Com um pouco de sorte, luz do sol corretamente posicionada e informações desse app, você pode ver a ISS passando no céu, praticamente naquele horizonte aonde o dia termina e a noite começa ou vice-versa.
Além disso, a ISS é realmente interessantíssima…
https://www.nasa.gov/mission_pages/station/main/index.html
Posição atual da ISS: http://iss.astroviewer.net/

As primeiras 20 horas

Uma das principais atrações turísticas que nosso boneco pode visitar aqui perto é o telescópio espacial Hubble. Telescópios, quando manuseados a partir da terra, encontram um obstáculo um tanto quanto incômodo na visão do espaço: a atmosfera. A luz das estrelas é parcialmente distorcida quando passa pela atmosfera terrestre. Isso não é problema para o povo maia prever o fim do mundo, ou para o astrólogo do jornal de domingo inventar suas pataquadas, mas é para cientistas de verdade tirarem medições e pegarem imagens tão perfeitas quanto possível do espaço. Oras, se a atmosfera atrapalha, porque não colocar um telescópio no espaço? Todo mundo sabe que tudo fica mais legal quando vai pro espaço![13]Machete Kills Again. In Space! http://www.imdb.com/title/tt2002719/
Fast and Furious Director Thinks Going to Space Is Very Possible: https://screenrant.com/fast-furious-9-space-director-comments/
https://www.youtube.com/watch?v=h77gdTbqvSo (achou que não ia ter link pro Choque de Cultura? achou errado, otário)

O Hubble foi mandado pro espaço em 1990 e ainda está trabalhando loucamente. Com as novas regras de aposentadoria, ele não vai poder parar tão cedo. Ele vai seguir na labuta pelo menos até 2020, porém seu sucessor, com um nome muito menos amigável ("James Webb Space Telescope", parece que acabaram os nomes fofos da NASA[14]James Webb Space Telescope já tem site: https://www.jwst.nasa.gov/) deve ser mandado pro espaço em 2019. A órbita do Hubble segue caindo a cada ano e, se ninguém tomar atitudes, o telescópio vai se espatifar com a Terra lá pra 2028.[15]http://hubblesite.org/ vale ver tudo que o Hubbel fotografa…
Em especial, as mais linda foto do espaço ja tirada (in my hubble opinion): The Pillars of Creation
https://www.nasa.gov/content/goddard/hubble-goes-high-definition-to-revisit-iconic-pillars-of-creation

Perto dos 600km de estrada, o Tesla vai entrando numa região conhecida como "Low Earth Orbit" (LEO), aonde a imensa maioria dos satélites de comunicação orbitam. Nessa altura, a órbita varia entre 90 e 120 minutos. Nessa altura também que podemos encontrar George Clooney flutuando pelo espaço desde o filme "Gravidade". É nessas próximas centenas de quilômetros que é mais provável que nosso boneco veja um dos mais de 4500 satélites que orbitam a Terra.[16]...de acordo com o United Nations office for outer space affairs. Que nome legal.
http://www.unoosa.org/oosa/en/spaceobjectregister/national-registries/index.html
A região da LEO acaba depois de 2000km, ou 20 horas de viagem.

Depois de 20 horas de viagem, nossa intrépida família em seu Golf Verde já chegou em São Paulo. Eles estão parando pela terceira vez para encher o tanque, em um dos postos da marginal Tietê. O garoto já dormiu e acordou algumas vezes, a mãe segue comendo biscoitos maizena e a filha passou a criticar a alta velocidade imposta pela gestão Dória.

E, se é possível chegar de Pelotas a São Paulo, nossos viajantes europeus já estão avistando a Torre Eiffel. 20 horas é o tempo de viagem entre Lisboa e Paris, com uma parada no Museu do Jamon em Madrid. Cada um deles saca seu instagram para tirar fotos rápidas no louvre e no arco do Triunfo e a viagem continua.

As próximas 20 horas

Saindo de Paris, as próximas 20 horas seriam suficientes para passar por outras 4 capitais européias: Bruxelas, Amsterdam, Berlim e Varsóvia. É o segundo dia de viagem e dois terços do continente já foram percorridos. As pernas de todos dentro do carro já estão adormecidas, em parte por não se moverem, em parte pelo peso da mala que cada um carrega no colo.

Um pouco mais de 20 horas também é o tempo que nossa triste família leva para chegar de São Paulo a Porto Seguro, na Bahia. Eles param um pouco no Rio, aonde o garoto tem o iPad roubado. Seguem pela BR-116 até Governador Valadares, daonde eles fazem um desvio para o litoral baiano.

O Tesla segue pela estrada. Acima de 2000km, ele percorre a "Medium Earth Orbit" (MEO) (não confundir com Middle Earth Orbit, com seus satélites capazes de prever o tempo em Valinor). O boneco pode ficar entediado se quiser: a MEO segue por mais 34.000km de vastidão espacial.

Você chegou ao seu destino

Quem chega primeiro? Alguém indo de Pelotas a Fortaleza ou um grupo viajando de Lisboa a Moscou?
Perto de Salvador, o VW Golf verde volta a encontrar a BR-116. A família passou as últimas 10 horas discutindo. Os pais concluíram que o melhor é o divórcio. O filho cogita a emancipação e a filha flerta com o lesbianismo. 10 horas depois e eles chegam a Fortaleza, no final (ou no começo da BR-116). A mãe abandona o carro e vai pegar um avião. de volta pra Pelotas. A filha vai pegar um ônibus de volta pra Porto Seguro. O filho pensa em um intercâmbio no Canadá. O pai chora no carro.

Mais de cinco horas antes, o grupo chegou em Moscou. A tempo para a Copa. Eles ainda tiveram que pegar a longa fila da alfândega na entrada da Bielorússia, onde descobriram que passaportes europeus não valem nada nos países soviéticos. Passaram pela desolada Minsk, onde não conseguiram encontrar nada de interessante pra gerar um Instagram Stories e, pouco mais de 54 horas depois de terem saído de Lisboa, chegam em Moscou.

Enquanto um carro andou por 60 horas na mesma direção sem sair do Brasil, os viajantes passaram em menos tempo por Lisboa, Madrid, Paris, Bruxelas, Amsterdam, Berlim, Varsóvia, Minsk e Moscou: 9 capitais em pouco mais de dois dias. Quase uma viagem CVC.

E pra Marte?

Já o nosso boneco precisaria de muito mais tempo: só para sair da Medium Earth Orbit, são mais 300 horas de viagem (12 dias). Na fronteira com a High Earth Orbit, ele passa por outro marco: uma placa aponta os 35.786km de estrada. Esse valor aparentemente randômico tem uma importância especial: satélites que ficam nessa região possuem um tempo de órbita de 24 horas. Sendo assim, eles estão constantemente apontados para a mesma região do planeta. Por isso eles são chamados de satélites geoestacionários. Há cerca de 600 deles na região, sendo o ponto mais povoado do espaço.[17]isso é legal demais:
http://stuffin.space/
este infográfico também:
https://qz.com/296941/interactive-graphic-every-active-satellite-orbiting-earth/

Acima desse ponto, começa a High Earth Orbit, e os satélites vão ficando mais e mais escassos. A viagem segue uma vastidão de imenso nada pelos próximos 145 dias, quando o boneco finalmente chegaria… na lua! Isso equivale a 0,7% da viagem.

Se imaginarmos um Faustão de 55 milhões de quilômetros de altura indo dos estúdios do Projac até Marte, depois de 160 dias de viagem, o Tesla ainda não teria saído da sola do sapato de Fausto Silva.[Fausto <3] Se seguisse na velocidade de 100km/h, o Tesla levaria quase 63 anos de viagem para chegar em Marte.

Por sorte, o Tesla de Elon Musk lançado no espaço no começo do mês de fevereiro seguia uma velocidade muito maior: mais de 11.000km/h. Mantendo essa velocidade, o Roadster com o Starman levaria quase sete meses para percorrer os 55 milhões de quilômetros.

Por isso, as perspectivas realistas de três meses para chegar em Marte são extremamente animadoras. O tempo é tão curto que não nos faz perceber o quanto o planeta vermelho está longe de nós.

Acelera, Marte!

E, se as perspectivas atuais já são satisfatórias, o futuro parece extremamente promissor. Se os experimentos com o misterioso motor EmDrive seguirem dando resultados positivos, o tempo de viagem poderia ser diminuído para 70 dias! Pouco mais de 10 semanas de viagem nos separariam de nossa colônia extra-terrestre. Os europeus tinha piores viagens na época das grandes navegações.

As viagens espaciais atuais envolvem uma imensa aceleração inicial e nenhuma aceleração artificial no resto do caminho. As trajetórias fazem uso da gravidade de planetas e estrelas para acelerar as espaçonaves. É como se nosso carro tivesse uma aceleração inicial enorme e seguisse na banguela pelo resto da viagem. Como não há resistência do ar, ele não desacelera.

Já o motor EmDrive não precisa de combustível e, tal qual o Faustão, pode continuar acelerando durante todo o caminho daqui até o planeta vermelho. A NASA e a agência espacial chinesa já fizeram testes com o motor no espaço e os resultados foram positivos.

O único problema que o motor EmDrive enfrenta atualmente é: ele não faz sentido. Ele viola completamente as leis da física newtoniana e não deveria funcionar. Mas funciona. E a comunidade científica não sabe explicar o porquê.[18]http://emdrive.com/

exemplo de funcionamento do motor emdrive

 

A atual era da conquista espacial pode acabar levando a uma completa revisão de toda a física atualmente conhecida. Os resultados disso podem ser uma revolução na forma como produzimos e consumimos energia. Atingiríamos a tão sonhada energia limpa, barata e infinita. Parece estarmos no caminho pra isso.

Até chegarmos lá, porém, vamos ter que continuar ouvindo muita gente dizer que não temos que nos preocupar com exploração espacial ou que os governos e entidades privadas precisam parar de mandar "lixo" pro espaço e gastar dinheiro com soluções para os problemas aqui na Terra.

Mas Marte nos espera. O planeta é logo ali.

Fontes e referências   [ + ]

1. eu sei, eu sei… o destino nunca foi Marte em si, mas a idéia era resvalar na órbita marciana (sem entrar nela, inclusive).
Como a intenção do lançamento era testar o foguete e não o movimento de um conversível pelo espaço, pouca atenção foi dada ao propulsor do carro (acionado na hora de sair da órbita terrestre), que queimou um pouco mais do que devia e vai passar um pouco mais longe de Marte do que se imaginava.
O destino do carro é incerto ainda, mas ele provavelmente seguirá até o cinturão de asteróides e seguirá viajando indefinidamente pelo espaço até ser fatalmente esmagado por um asteróide. Tal qual a Terra.
2. http://www.mars-one.com/
3. vale muito ler tudo do Tim Urban: https://waitbutwhy.com/2015/08/how-and-why-spacex-will-colonize-mars.html
4. https://www.space.com/16875-how-far-away-is-mars.html
5. https://mars.nasa.gov/insight/
6. https://www.nasa.gov/mission_pages/juno/main/index.html\
Juno foi(é/está sendo) uma missão da NASA com o objetivo de estudar Júpiter.
Pra ter uma idéia de quão longe é Júpiter, segue a animação com a trajetória da spacecraft:
https://www.youtube.com/watch?v=sYp5p2oL51g
7. As red-dragons, apesar de serem planejadas para estarem prontas este ano, fracassaram em conceito. As dragon, entretanto, são uma realidade:
http://www.spacex.com/dragon
Para ocupar o lugar das Red dragon nas missões marcianas e em nossos corações, uma nova spacecraft, maior e mais legalzona estaria já sendo planejada.
8. https://pt.wikipedia.org/wiki/BR-116
9. http://www.roadtraffic-technology.com/features/featurethe-worlds-biggest-road-networks-4159235/
10. Não canso de ver: https://www.youtube.com/watch?v=FHtvDA0W34I
11. http://www.esa.int/About_Us/Welcome_to_ESA/ESA_history/50_years_of_humans_in_space/The_flight_of_Vostok_1
12. Uma vez, num encontro de astrônomos, me ensinaram a ver a ISS. Precisa ser logo no começo do dia ou no final, quando o sol não atrapalha, mas seus raios ainda brilham no céu. Há diversos apps para celular que monitoram o posicionamento de satélites, como por exemplo, o Starwalk. Com um pouco de sorte, luz do sol corretamente posicionada e informações desse app, você pode ver a ISS passando no céu, praticamente naquele horizonte aonde o dia termina e a noite começa ou vice-versa.
Além disso, a ISS é realmente interessantíssima…
https://www.nasa.gov/mission_pages/station/main/index.html
Posição atual da ISS: http://iss.astroviewer.net/
13. Machete Kills Again. In Space! http://www.imdb.com/title/tt2002719/
Fast and Furious Director Thinks Going to Space Is Very Possible: https://screenrant.com/fast-furious-9-space-director-comments/
https://www.youtube.com/watch?v=h77gdTbqvSo (achou que não ia ter link pro Choque de Cultura? achou errado, otário)
14. James Webb Space Telescope já tem site: https://www.jwst.nasa.gov/
15. http://hubblesite.org/ vale ver tudo que o Hubbel fotografa…
Em especial, as mais linda foto do espaço ja tirada (in my hubble opinion): The Pillars of Creation
https://www.nasa.gov/content/goddard/hubble-goes-high-definition-to-revisit-iconic-pillars-of-creation
16. ...de acordo com o United Nations office for outer space affairs. Que nome legal.
http://www.unoosa.org/oosa/en/spaceobjectregister/national-registries/index.html
17. isso é legal demais:
http://stuffin.space/
este infográfico também:
https://qz.com/296941/interactive-graphic-every-active-satellite-orbiting-earth/
18. http://emdrive.com/
nRT

A ocidentalização do Islam

Em 2015 cerca de um milhão de refugiados chegaram à Europa.

Ajudar refugiados de guerra parece a coisa mais correta e humana a se fazer. São pessoas que perderam suas casas, seus trabalhos, amigos, parentes… Diversos países da Europa, tendo estado do outro lado da balança há menos de 100 anos, abriram suas portas. Oras, se formos pensar, o Brasil só é o país multi-cultural de hoje graças à chegada de refugiados e famílias fugindo das duas Grande Guerras, criando suas fortes comunidades italianas, japonesas, alemãs; enchendo a Mooca de Cantina, a Liberdade de sushis e o sul do país de modelos e boas cervejas. Até o doner kebab, o mundialmente conhecida lanche turco não é turco, mas originalmente alemão, criado por um imigrante que adaptou a receita ao gosto europeu. Então a lógica mais óbvia é que essa integração toda só pode ser saudável para todos os lados, certo?

 

Não é essa a teoria de alguns...

Pelo menos 1/3 dos refugiados vinham da Síria, onde grupos islâmicos extremistas tomaram o poder e tocavam o terror na galera. Cerca de 70% são muçulmanos. E seriam esses supostos religiosos fervorosos uma peça fundamental num plano milenar de dominação mundial composto pelas mentes mais maravilhosas e maléficas do planeta. E que estaria começando agora, com a islamização da Europa.[1]Dados de refugiados de 2015, do jornal inglês Independent, catalogados e linkados à UNHCR (http://data2.unhcr.org/en/situations e http://www.unhcr.org/)

A nova ordem mundial

Conheço Arnaldo Zonaro[2]O nome foi alterado, mas o cara existe de verdade. da época da faculdade. Sempre foi um cara quieto, na dele, jogando seu game boy de boas nas aulas de autômatos. Quando o Brexit foi aprovado, ele reagiu de forma mais exaltada a alguma piada postada por mim no Facebook.

Eu já sabia o posicionamento extremista de Zonaro. Ele sempre fez questão de se mostrar a favor de Donald Trump, arduamente contra estrangeiros ou imigrantes (refugiados então seriam o ponto mais baixo da escória da humanidade) e nutria um ódio particularmente pesado contra islâmicos.

Normalmente, o cidadão médio o ignoraria ou o xingaria por ter um pensamento diferente do seu (e portanto, errado). Ainda mais em uma questão que pra mim soa tão óbvia quanto a danosidade da medida ao Reino Unido. Porém, eu me dediquei a entender profundamente o ponto de vista de Arnaldo. Nos próximos meses, eu troquei com ele diversas mensagens, vi vídeos, li artigos e me esforcei o máximo para entender a lógica de Zonaro.

A base do pensamento é em um negócio chamado Nova Ordem Mundial, um grupo poderoso que busca o domínio do mundo. De acordo com a teoria, a União Européia seria um sandbox, um teste pra ver se o negócio funcionaria mesmo, em um plano que já está em prática há quase 100 anos e que seria concretizado no próximo século. Sim, há pessoas que acreditam que nós, meros seres humanos que mal conseguem organizar uma Copa do Mundo em tempo hábil, teríamos o discernimento e a mente evoluída o bastante a ponto de criar um plano de 200 anos para a dominação do mundo. Parte desse plano envolveria a islamização da Europa, desencadeada por uma guerra fictícia no Oriente Médio - que seria o gatilho para a destruição total da "cultura ocidental".

Eu honestamente nunca entendi o plano completo. Em um determinado momento, cansado de minhas perguntas e contradições encontradas em sua teoria, Zonaro me bloqueou. Antes disso, porém, ele apontou diversas evidências de como o islamismo está dominando o Velho Continente e como toda a Alemanha deixará de beber cerveja e se curvará para Meca nos próximos 50 anos.

Para tentar comprovar essa dominação iminente, Zonaro me atirou na fuça fatos supostamente relacionados, como o fato de Muhammad ser o nome de bebê mais popular em Londres em 2015[3]http://www.standard.co.uk/news/london/revealed-the-most-popular-name-for-baby-boys-in-london-according-to-official-data-a2871406.html (apesar de Oliver ter a vantagem no resto do Reino Unido, comprovando a popularidade do Teste de Fidelidade de João Kléber) ou o surgimento (óbvio, dada a quantidade de imigrantes) de diversos bairros muçulmanos nas principais cidades européias.

Depois de ler alguns artigos sobre "Como a Europa está se tornando a Eurabia", resolvi calcular efetivamente: quantos imigrantes seriam necessários para islamizar a Europa?

 

O processo

A porcentagem islâmica da Europa hoje é de aproximadamente 6%. Em um pensamento mais extremista, para uma islamização completa, a ordem parece fazer essa porcentagem beirar os 100%. Entretanto, como parece óbvio, essa é uma meta um tanto utópica. Qual porcentagem deveríamos mirar para uma islamização eficiente? 70%? 50%?

Em 1933, quando o nazismo tomou o poder na Alemanha, ele era apoiado por 33% das pessoas. Sim, Hitler chegou ao poder mesmo tendo 67% da população contra ele. Consigo imaginar os "Primeiramente, Fora Hitler" escritos nos muros dos palácios.

33% parece uma meta razoável e certamente possível de ser alcançada: temos hoje na Europa 76,2% de cristãos, dos quais 48% são identificados como católicos. Isso dá uma estatística bruta de 36,4% de católicos do total da população, então a meta de 33% parece perfeitamente aceitável para uma islamização eficiente.

Com uma população de 743,1 milhões de pessoas, a matemática aponta 44,58 milhões de muçulmanos. Se toda a população da Síria migrasse para a Europa (22,85 milhões de pessoas em 2013) e, considerando que a Síria fosse completamente islâmica, isso seria suficiente para aumentar o percentual muçulmano da Europa a 8,8%[4]67,43 milhões de islâmicos em uma população de 765,95 milhões de pessoas. Um acréscimo relativamente significativo, mas ainda extremamente distante da temida islamização.

A teoria, porém, vai mais a fundo. O processo de dominação muçulmana se daria não somente pela “invasão” de refugiados, mas pela dominação das próximas gerações. A população européia estaria em declínio. O dado estatístico mais aceitável para apontar isso é a “taxa de fertilidade”: a quantidade de nascimentos por indivíduo do sexo feminino em um determinado grupo demográfico. Se a taxa de fertilidade é de cerca de 2.1, o grupo estaria em equilíbrio (uma vez que para cada nascimento ainda precisamos de uma mulher e um homem - e um pouco maior pra compensar a mortalidade infantil). Qualquer coisa abaixo disso significa que, em média, dois cidadãos geram menos de duas crianças e a população estaria em declínio. Em 2006, a taxa de fertilidade no Brasil era de 2.0. Em 2011, já era de 1.8. Com exceção do Mr. Catra (que possui uma taxa de fertilidade de 32.0), a população brasileira também está em declínio.

Em 2014, a taxa de fertilidade da União Européia era de 1.58. Portugal era a menor, com 1.23 e França a maior, com meros 2.01[5]https://en.wikipedia.org/wiki/Demographics_of_the_European_Union#Population_shifts. Mídias mais extremistas apontam que uma taxa menor de 1.8 é irreversível e pode destruir a população. O Japão, entretanto, está abaixo dessa taxa desde a década de 70 e o que mais se viu no mundo ano passado foram Pokemons.
Já as taxas de fertilidade islâmicas são consideravelmente maiores: podem chegar a 5.6 na África sub-saariana, mas mantém uma média de 3.1 no mundo[6]http://www.pewresearch.org/fact-tank/2015/04/23/why-muslims-are-the-worlds-fastest-growing-religious-group/ft_15-04-23_muslimfertility/. Oras, se a cada criança européia nascida, surgirem dois pequenos Mohammeds, evidentemente que é questão de tempo até estarmos todos virados pra Meca.

Quanto tempo?

Mantidas as taxas de fertilidade atuais e considerando a imigração completa de toda a população da Síria e sendo uma imigração 100% muçulmana, a islamização aconteceria por volta de 2080.

População Europa

População Islâmica %
Hoje 765.95 67.43 8.80%
2050 605.1005 104.5165 17.27%
2080 478.029395 162.000575 33.89%
2110 377.6432221 251.1008913 66.49%

 

Mas mesmo se o absurdo aumento de migração especulado não ocorrer e a demografia da Europa se manter nos níveis atuais, a islamização aconteceria da mesma forma:

População Europa População Islâmica %
Hoje 743.1 44.58 6.00%
2050 587.049 69.099 11.77%
2080 463.76871 107.10345 23.09%
2110 366.3772809 166.0103475 45.31%

 

A estatística taí: a islamização existe. Trump está certo. Zonaro tem razão em me bloquear do Facebook por contestar o óbvio. Vamos todos usar burcas.

Louvado seja o bacon

Ehmad[7]Outro nome que foi alterado (não sei porquê, afinal o cara não vai ler isso) é egípcio. Ele chegou em Berlim dois meses antes de mim, para trabalharmos na mesma empresa. Ele tomou sua primeira cerveja na semana que eu cheguei. Algumas semanas depois, durante um almoço, ele compartilhou que sua religião não permitia comer porco, então ele não tinha nem vontade de experimentar.

"Ehmad… essa lingüiça que você está comendo… é porco."

Uma expressão simultânea de pavor e aceitação dominou seu redondo rosto árabe.

"Well… it’s not so bad!", disse ele.

Nos próximos meses, ele se tornaria um entusiasta da louca vida noturna berlinense, virando noites em raves e nightclubs, enfrentando ressacas - ele até solicitou que trocassem seu horário, trabalhando aos sábados e tirando folga às segundas, de forma que não teria que trabalhar com a terrível ressaca das baladas de domingos inteiros.

No meio deste ano, Ehmad avisou que estaria parando de beber.

"Eu não fico bem quando eu bebo, então estou parando com o álcool. Vou ficar só nas drogas ilícitas a partir de agora."

Ehmad não segue mais o Quorão. Ele abandonou de vez o islamismo.

Muitas pessoas falam na Islamização do ocidente, mas é fácil pensar nas tentações que os imigrantes árabes encontram quando deixam suas terras e vidas que sempre foram fortemente baseadas na religião: decotes tentadores, cervejas européias, festas regadas à álcool, McDonalds e o cheiro de delicioso bacon invadindo narinas de transeuntes famintos.

O contexto aonde os imigrantes viviam era completamente diferente do que eles acabam por encontrar na Europa. Muitos seguiam as regras islâmicas, menos por uma questão de crença e mais por uma questão política e social. São tão islâmicos quanto o Habib’s é um restaurante árabe. A dificuldade em abandonar a religião em um país extremista não existe quando eles chegam na Europa - e muitos realmente a abandonam.

A lei islâmica condena à morte um muçulmano que abandona a religião. O paradoxo é que uma vez que ele abandona a religião, não precisa mais seguir seus preceitos, então a auto-condenação deixa de ser necessária.

Nos Estados Unidos, por exemplo, estima-se que 32% das pessoas criadas no islamismo abandonem a religião na idade adulta[8]General Social Survey -http://gss.norc.org/. O enfraquecimento da religião parece seguir o mesmo caminho na Europa. Ex-muçulmanos possuem até uma organização[9]http://ex-muslim.org.uk/ para se ajudarem no Reino Unido e igrejas cristãs dos países que receberam mais refugiados estão relatando um substancial aumento de fiéis, inclusive com a necessidade de realizarem batismos em massa[10]http://www.stern.de/panorama/gesellschaft/massentaufen--fluechtlinge-konvertieren-vom-islam-zum-christentum-6837644.html (cuidado: alemão).

Não só o abandono religioso está sendo deixado fora da equação, mas a tabela espera que a taxa de fertilidade islâmica permaneça a mesma. Ao redor do mundo a quantidade média de crianças por família islâmica caiu de 4.3 em 1995 para 2.9 em 2010 e a tendência é que siga em declínio. Entre as famílias que chegam na Europa, essa taxa cai mais rápido[11]dados por Doug Sanders, autor de The Myth of the Muslim Tide: Do Immigrants Threaten the West?
https://www.amazon.com/The-Myth-Muslim-Tide-Immigrants/dp/0307951170
. É uma tendência evidente de famílias terem menos filhos conforme consigam uma melhor condição social.

A expectativa real ainda é de um aumento do islamismo, mas a previsão para 2050 é que o islamismo atinja somente cerca de 10% da Europa[12]http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/11518702/Mapped-What-the-worlds-religious-landscape-will-look-like-in-2050.html. Isso também se eles pararem de sair se explodindo por aí.

 

Nova teoria

É por isso que acredito que um plano tão demorado, rebuscado e complexo não pode ter sido organizado propositalmente pela mesma espécie que acha que no Japão um professor não se curva ao imperador. Se a islamização realmente for uma idéia estruturada do jeito que algumas pessoas acreditam, ela deve ter uma razão a mais. E quem se beneficiaria pela islamização?

Sim: porcos. Depois do fracasso de 1930 em fazer os judeus conquistarem a Europa, eles elaboraram um novo plano de dominação envolvendo outra religião que lhes fosse vantajosa, buscando o mesmo sucesso que os bovinos tiveram com o hinduísmo na Índia. Assim, a islamização seria um gigantesco plano suíno para preservar a própria espécie.

Talvez, afinal, a realidade seja menos Admirável mundo novo e mais Revolução dos Bichos. Se islamização existe, é isso que eu escolho acreditar.

Mas, qualquer uma das hipóteses, a islamização não deve amedrontar a ninguém. Talvez a maior ameaça ao islamismo não seja política ou forças armadas, mas bacon e cerveja.

Fontes e referências   [ + ]

1. Dados de refugiados de 2015, do jornal inglês Independent, catalogados e linkados à UNHCR (http://data2.unhcr.org/en/situations e http://www.unhcr.org/)
2. O nome foi alterado, mas o cara existe de verdade.
3. http://www.standard.co.uk/news/london/revealed-the-most-popular-name-for-baby-boys-in-london-according-to-official-data-a2871406.html
4. 67,43 milhões de islâmicos em uma população de 765,95 milhões de pessoas
5. https://en.wikipedia.org/wiki/Demographics_of_the_European_Union#Population_shifts
6. http://www.pewresearch.org/fact-tank/2015/04/23/why-muslims-are-the-worlds-fastest-growing-religious-group/ft_15-04-23_muslimfertility/
7. Outro nome que foi alterado (não sei porquê, afinal o cara não vai ler isso)
8. General Social Survey -http://gss.norc.org/
9. http://ex-muslim.org.uk/
10. http://www.stern.de/panorama/gesellschaft/massentaufen--fluechtlinge-konvertieren-vom-islam-zum-christentum-6837644.html (cuidado: alemão)
11. dados por Doug Sanders, autor de The Myth of the Muslim Tide: Do Immigrants Threaten the West?
https://www.amazon.com/The-Myth-Muslim-Tide-Immigrants/dp/0307951170
12. http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/11518702/Mapped-What-the-worlds-religious-landscape-will-look-like-in-2050.html
nRT

Bora pra Tóquio

A cada quatro anos nossas televisões, jornais, internets e vidas são invadidos por um espírito desportivo global único. Durante algumas semanas as olimpíadas nos mostram seres humanos incríveis, nadando, correndo, pulando, atirando bolas de ferro em gramados, se pendurando em argolas, saltando em piscinas, levantando peso, dormindo com corredores e contratando empresários para cuidar da própria sub-imagem, lutando, remando, atirando bolas e bambolês pra lá e pra cá… são tantas atividades físicas que é normal nos sentirmos cansados só de assistir televisão.

Ao mesmo tempo é normal sentir uma empolgação especial. Quem nunca teve vontade de competir e representar seu país em um evento desse porte? Em entrar em um estádio seguindo a nobre flâmula nacional e ser xingado na internet com a iminente derrota? Quem nunca assistiu a uma competição randômica no canal 700 da SporTV e pensou “eu também consigo fazer isso”, estirado no sofá, enquanto toma um gole de cerveja morna e recolhe Fandangos de presunto dentre os pêlos do peito? Quem diabos não viu o primeiro ministro do Japão sair de um cano fantasiado de Super Mario e não pensou “É isso. Eu TENHO que ir pra Tóquio em 2020”.

Ser um atleta olímpico parece extremamente complicado - e, honestamente, realmente é. Mas não precisamos manter essas ambições em um espaço inacessível de nosso âmago; com suficiente esforço e dedicação dá pra qualquer um treinar o suficiente e ir pro Japão - e até escrever o próprio nome nos anais da história e voltar com uma redonda pra casa. Por sorte, o leque de opções desportivas proporcionado pelo Comitê Olímpico é amplo o suficiente para abranger praticamente todo mundo. Assim, mais do que puramente uma aptidão inicial, uma vantagem genética ou um gosto pessoal, é possível escolher um esporte para representar de acordo com a facilidade estatística olímpica que ele representa.

 

É isso que este pequeno grande artigo visa buscar: qual a recomendação matemática que mais aproximaria o sedentário de sofá de um pódio olímpico?

As estatísticas aqui apresentadas não envolvem períodos de treino ou aquisição de habilidades. É uma mera aplicação de exatas em cima de biológicas. Assim, no caso de uma competição única de luta olímpica, considera-se que cada lutador possui uma chance de 50% de vitória, independente de ser o João Gordo enfrentando o Dado Dolabella. A estatística aplicada é o método clássico, de forma que, com 10 competidores, cada um dele possui 30% de chances de subir no pódio - na estatística moderna (ou estúpida), cada competidor teria 50% de chance de ganhar medalha: ou ganha ou não.

Assim, é seguro afirmar que a parte mais difícil da elaboração desta pesquisa foi certamente a obtenção de dados. Diversos e-mails e mensagens foram trocados com as mais diversas federações desportivas para se obter número de atletas em cada esporte. Isto posto, os números de base são os de atletas inscritos e não de praticantes regulares do esporte. É uma enorme diferença em esportes como o rugby, aonde os números passados foram de 11 mil atletas filiados à CBRu e 60 mil praticantes no total[1]"Hoje, o rugby tem 60 mil praticantes no Brasil. É o esporte que mais cresce no país: mais de 15% ao ano" (http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2015/05/com-longa-historia-no-brasil-rugby-volta-olimpiadas-apos-92-anos.html) - os números das seis federações filiadas à CBRu, porém, apontam 11 mil.. Em casos como esse, o número base usado foi o de filiados, o que acaba facilitando as estatísticas. Com as contas feitas, bastou encher o texto de piadas com fandangos de presunto e termos pernósticos como “isto posto” ou “pernósticos”.

As recomendações também se baseiam em um mínimo necessário de bom-senso - considerando a dificuldade sobre-humana evidente de algumas provas.

 

Cambalhotas e piruetas

Por exemplo, a ginástica. Não é necessário fazer cálculos muito avançados para saber que, se a única ginástica que você faz consiste em alcançar o controle remoto atrás do sofá enquanto segura o saco de Doritos e equilibra o pote de dip no joelho, então você pode esquecer esta categoria. Dar sete cambalhotas no ano novo não é habilidade suficiente para se inscrever em uma equipe e contratar um técnico particular para ir para o Japão.

São anos de treino para atingir o patamar olímpico na categoria e você provavelmente já está muito velho. A romena Nadia Comaneci, por exemplo, atingiu a primeira nota máxima olímpica da história com apenas 14 anos. Então, se você consegue ler isto sem ter que pedir autorização para os responsáveis, provavelmente você já é velho demais para começar.

Porém, se você é um artista circense ou um ginasta em formação, então não tem porque você continuar neste artigo. Volte a treinar até você torcer seu calcanhar.

 

Atletismo através dos tempos

A mesma dica aplicada à ginástica se aplica também ao atletismo: se você já não está no meio, simplesmente desista.

A evolução física dos atletas é impossível de acompanhar. Jesse Owens, que ganhou ouro nos 200m em Berlim, desafiando o conceito de raça ariana sonhado pelo tio Hitler, mal chegaria às semifinais das Olimpíadas este ano. Da mesma forma, Robert Shavlakadze, medalha de ouro de salto em altura nas Olimpíadas de Roma em 1960 chegaria em último lugar meros 50 anos depois. [2]resultados do salto em altura 1960: https://en.wikipedia.org/wiki/Athletics_at_the_1960_Summer_Olympics_%E2%80%93_Men%27s_high_jump

O progresso físico é evidente até mesmo em atividades básicas, como caminhar: O primeiro lugar na marcha atlética no Rio completou os 50km com quase uma hora de vantagem contra o primeiro colocado em 1948.

Mas não foi só no atletismo que o esporte evoluiu drasticamente…

 

Coletivos

Vôlei, por exemplo: se você é incapaz de sacar uma bola a mais de 100km/h, pode desistir.[3]Se você ainda assim quiser tentar se aventurar pelo vôlei, segue um artigo de 20 páginas analisando a forma mais eficiente de fazer o melhor saque possível:
http://volleyball.qc.ca/sites/default/files/volley_files/FORE/FORE_AnalysisVolleyballJumpServe.pdf (University of Manitoba - cuidado: PDF)
Dentre os esportes coletivos, ele foi um dos que mais evoluiu, inclusive nas regras, que retiraram o sistema de vantagens (lembram?) que deixava o jogo mais preso e lento. A altíssima concorrência e o medo inerente de todos nós aos ataques de fúria de Bernardinho também impede qualquer jogador não-profissional de querer entrar em quadra em Tóquio.[4]Há um ditado (que a BBC diz que é um ditado popular no Brasil, mas que o Google mostra que é um ditado popular na BBC) que diz que “Vôlei é o esporte número um no Brasil; Futebol é uma religião”. Então não, não vou nem tentar fazer contas sobre o futebol aqui.

Os esportes coletivos talvez sejam mais fáceis, já que você pode ter a sorte de fazer parte de uma geração vencedora e entrar no elenco sem fazer nada[5]Ver também: Viola (1994), Ricardinho (2006). Sem contar que pela quantidade de medalhas distribuídas, é nos esportes coletivos que se encontram as maiores chances de subir no pódio. 30% dos atletas de rugby que chegaram ao Rio voltaram para casa com medalha. No handball essa porcentagem foi de quase 25%. Apesar dessas porcentagens parecerem apetitosas, ambos são o mais recomendados para quem quiser ir pra Tokyo, uma vez que são esportes muito praticados no Brasil, ambos com menos de 0,1% de chance de classificação olímpica. E, se contarmos os praticantes não federados, as estatísticas se tornam mais pífias ainda.

Então, se você quer juntar o pessoal do bairro e ir pra Tokyo, a recomendação fica com o Hoquei de grama, aonde você encontra quase 2,3% de chance de integrar a equipe brasileira se começar a treinar já!

 

Nadando em verdes águas

Ainda nos coletivos, as chances também são relativamente altas no Pólo Aquático, com cerca de 1,5% de chance de classificação olímpica em piscinas verdes.

Se o seu negócio realmente for água, a natação também não é o mais recomendado dos esportes. Apesar da grande delegação brasileira composta por 33 atletas, são quase 20000 registrados [6]http://www.cbda.org.br/cbda/natacao/atletas - Foi bem fácil obter dados relativos aos esportes aquáticos graças ao excelente site da CBDA. Não só todos os atletas registrados constam no site, como também é possível ver gráficos de tempos e histórico de competições de cada um - como este excelente perfil de Cesar Cielo http://www.cbda.org.br/cbda/atleta/perfil/registro/067794/cesar-augusto-cielo-filho. As federações deviam ser todas igualmente cuidadosas com seus dados esportivos - isso traz efetivamente um fortalecimento ao esporte. e apesar das estatísticas indicarem 10% de chance de pódio, mais de 30% das medalhas no Rio foram pros Estados Unidos, que realmente dominam o esporte enquanto não estão destruindo um ou outro banheiro[7]https://www.youtube.com/watch?v=6muqVXTuZLU.

Da mesma forma, parece meio difícil você conseguir uma medalha nos saltos ornamentais sem ser chinês: quase metade das 24 medalhas na categoria foram para China. A classificação olímpica é bem mais fácil: com apenas 171 atletas federados[8]http://www.cbda.org.br/cbda/saltoornamental/atletas, a chance de ir pra Tóquio fica nos 5,26%, a mais alta de todos os esportes.

Ainda na água, se você for do sexo feminino, pode tentar o nado sincronizado (2,325% de chance de ir pra Tóquio; 5,77% de chance de voltar com medalha). Se possui uma corredeira do lado de casa, pode tentar a canoagem (0,71% de chance de ir pra Tóquio; 12% de chance de voltar com medalha)[9]Atletas praticantes, de acordo com a CBCa - Confederação Brasileira de Canoagem - http://www.canoagem.org.br/
Canoagem Velocidade: 1204
Canoagem Slalom: 694
[10]Dados unificados da canoagem: SLALOM + SPRINT
Praticantes: 1808
Delegação olímpica brasileira: 13
~% de classificação olímpica: 0.7190
~% de trazer medalha: 12.0845
.

Talvez seja a hora de procurar um clube aquático e iniciar imediatamente os treinos. Para esta “Geração Twitter”, composta de velhos cansados que mal sabem nadar, que suam em bicas quando ofegantemente precisam correr atrás do ônibus, que sofrem de dores nas costas aos 17 e têm ambos os joelhos estragados aos 23, o melhor a fazer é procurar um esporte menos cansativo.

 

Tirando o cavalinho da chuva

Ah, o hipismo! Se há um esporte que exige bem pouco do atleta, cá estamos: o cavalo é quem cuida de tudo. Pra começar, é necessário arrumar um animal qualificado (e aqui, me refiro novamente ao cavalo): apenas cinco ou seis de cada mil eqüinos são considerados bons o suficiente para competirem numa Olimpíada. E você vai precisar comprar um, o que não é problema se você tiver uns 100 mil dólares sobrando. Mas não gaste todas as economias no cavalo: não se esqueça de separar uns 12 mil dólares, que é o valor mínimo a ser gasto nas suas roupas e equipamentos para o cavalo para a competição. [11]http://www.marketplace.org/2012/07/31/life/london-2012/dressage-not-your-average-horse-play

valores em dólares

valores em dólares

São 3 eventos eqüinos: jumping, aonde o seu cavalo tem que ser bom em pular cerca, dressage, aonde o seu cavalo tem que ter a finesse de uma modelo e eventing, aonde o seu cavalo tem que ter a distinção de uma modelo com a habilidade de andar na lama de um ator de Jackass. Tipo uma Panicat. Ao atleta cabe ter dinheiro para comprar o cavalo e ficar em cima dele enquanto ele faz tudo isso.

Para cada evento, há pontuação individual e em equipe, sendo que a equipe premia 4 donos de cavalos.

4 medalhas x 3 colocações x 3 eventos = 36 medalhas
1 medalha x 3 colocações x 3 eventos = 9 medalhas

Com tanta medalha, as chances de um atleta de hipismo voltar com uma é de mais de 20%.

Dentre os cerca de 6100 cavaleiros atualmente federados[12]http://www.fph.com.br/artigos/o_hipismo - A federação paulista possui cerca de 5000 afiliados, o que corresponde a 82% do total nacional. Assim chegamos a esse número., 12 participaram das competições no Rio, numa chance de classificação de 0,19%. Uma das medalhas mais fáceis e mais caras que se pode obter.

 

Na mira

Acertar algo na mira já é uma atividade mais próxima da realidade da maioria de nós, principalmente dentre aqueles que ao deitarem na cama e perceberem que esqueceram de apagar a luz ficam atirando coisas no interruptor pra não precisarem se levantar. Para a geração que cresceu virando madrugadas em torneios de Counter-Strike, parece inteligente usar todo o conhecimento adquirido monopolizando as snipers da Lan House para tentar atirar em coisas de verdade.

Tiro foi um esporte fácil para obter estatísticas: afinal, todo praticante precisa manter registro de sua arma. Em 2015, o exército brasileiro possuía 74 mil praticantes de tiro cadastrados. Já a confederação brasileira de tiro esportivo tem cerca de 5000 afiliados, dentre os quais apenas 800 realmente competem ativamente.[13]http://noticias.r7.com/brasil/em-12-anos-2680-armas-de-praticantes-de-tiro-foram-roubadas-furtadas-ou-perdidas-21092015

O número já é baixo e se torna ainda mais fácil sabendo que há nada menos do que NOVE categorias olímpicas de tiro. A delegação brasileira este ano contou também com nove atletas, o que, numa matemática bruta, dá uma chance de classificação de 0,18%.

Lembrando que são apenas os dados oficiais e todos sabemos que temos excelentes praticantes ilegais de tiro no Brasil que, se disputassem na categoria três-oitão, o ouro seria nosso - pelo bem ou pelo mal.

 

E pra quem cresceu lendo as desventuras de Thomas de Hookton, certamente a idéia de virar um arqueiro profissional já deve ter passado pela cabeça.

No arco e flecha são 128 atletas em 4 categorias: masculino e feminino; individual e equipes. As equipes são formadas por 3 atletas, o que resulta em 24 medalhas possíveis e uma chance de trazer medalha de 18,75%. Também é um dos esportes aonde a classificação olímpica é relativamente razoável, com 0,85% de chance de integrar a equipe brasileira [14]“No final da década de 1990, havia no Brasil cerca de mil praticantes de tiro com arco, sendo 500 filiados à CBTarco. Hoje, não passam de 700, e somente 300, filiados.”, fonte: http://esporte.uol.com.br/olimpiadas/ultimas/2004/07/19/ult2276u1.jhtm - como os dados são de 2004 e a CBTarco ignorou solenemente meus e-mails, estou usando os dados mais pessimistas como base de contas, considerando um universo de 700 arqueiros.. Uma chance baixa, mas se você quiser muito furar o olho de alguém (literalmente), arco e flecha fornece estatísticas muito mais favoráveis do que qualquer forma de luta.

 

Não vai ter golpe

O judô, por exemplo, com mais de 2 milhões de praticantes no Brasil, proporciona uma das mais difíceis modalidades a representar olimpicamente, com 0.00063% de chance de ir pra Tóquio. A categoria marcial mais fácil de se classificar é a Luta Olímpica. Aqui que se encontra a não-tão-popular Luta Greco-Romana, que agora divide espaço na categoria com a luta livre. 353 atletas disputaram as 72 medalhas distribuídas no Rio, dando mais de 20% de chance de pódio. E, por não ser uma categoria exatamente popular, as chances de classificação olímpica ficam nos 0,17%.

 

Não vai ter dados

Infelizmente nem todas as confederações responderam minhas incessantes cartinhas. Assim sendo, não foi possível obter dados de todos os esportes. A confederação brasileira de esgrima e a CBTM (confederação brasileira de tênis de mesa, que organiza partidas de ping-pong) foram dois órgãos que não divulgam dados e não atendem a imprensa[15]oi, eu sou imprensa!.

Na ânsia de obter um relatório o mais detalhado possível, calculei os dados através do número mágico 0,22; que foi obtido através da média da divisão da quantidade de filiados de uma federeção pela quantidade de likes que a página da federação recebeu no Facebook[16]É um valor aproximado. No cálculo da média, tive que deixar de fora o hipismo que tem mais filiados do que likes (extremamente suspeito não? Deve ser lavagem de dinheiro isso aí) e estava fodendo com minha média-número-mágico..

Isso mostrou que, ao menos na modalidade “cresceu lendo Bernard Cornwell”, a esgrima é mais vantajosa do que o arco e flecha.

 

Mas mesmo assim, os dados no geral são bem pessimistas, não importa o esporte que você escolha praticar. A dica final é começar a treinar o mais rápido possível.

E, se quiser mesmo uma forcinha da estatística pra ir pra Tóquio, comece a treinar saltos ornamentais.

Se esses filipinos conseguem competir, em quatro anos você também consegue

Fontes e referências   [ + ]

1. "Hoje, o rugby tem 60 mil praticantes no Brasil. É o esporte que mais cresce no país: mais de 15% ao ano" (http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2015/05/com-longa-historia-no-brasil-rugby-volta-olimpiadas-apos-92-anos.html) - os números das seis federações filiadas à CBRu, porém, apontam 11 mil.
2. resultados do salto em altura 1960: https://en.wikipedia.org/wiki/Athletics_at_the_1960_Summer_Olympics_%E2%80%93_Men%27s_high_jump
3. Se você ainda assim quiser tentar se aventurar pelo vôlei, segue um artigo de 20 páginas analisando a forma mais eficiente de fazer o melhor saque possível:
http://volleyball.qc.ca/sites/default/files/volley_files/FORE/FORE_AnalysisVolleyballJumpServe.pdf (University of Manitoba - cuidado: PDF)
4. Há um ditado (que a BBC diz que é um ditado popular no Brasil, mas que o Google mostra que é um ditado popular na BBC) que diz que “Vôlei é o esporte número um no Brasil; Futebol é uma religião”. Então não, não vou nem tentar fazer contas sobre o futebol aqui.
5. Ver também: Viola (1994), Ricardinho (2006)
6. http://www.cbda.org.br/cbda/natacao/atletas - Foi bem fácil obter dados relativos aos esportes aquáticos graças ao excelente site da CBDA. Não só todos os atletas registrados constam no site, como também é possível ver gráficos de tempos e histórico de competições de cada um - como este excelente perfil de Cesar Cielo http://www.cbda.org.br/cbda/atleta/perfil/registro/067794/cesar-augusto-cielo-filho. As federações deviam ser todas igualmente cuidadosas com seus dados esportivos - isso traz efetivamente um fortalecimento ao esporte.
7. https://www.youtube.com/watch?v=6muqVXTuZLU
8. http://www.cbda.org.br/cbda/saltoornamental/atletas
9. Atletas praticantes, de acordo com a CBCa - Confederação Brasileira de Canoagem - http://www.canoagem.org.br/
Canoagem Velocidade: 1204
Canoagem Slalom: 694
10. Dados unificados da canoagem: SLALOM + SPRINT
Praticantes: 1808
Delegação olímpica brasileira: 13
~% de classificação olímpica: 0.7190
~% de trazer medalha: 12.0845
11. http://www.marketplace.org/2012/07/31/life/london-2012/dressage-not-your-average-horse-play
12. http://www.fph.com.br/artigos/o_hipismo - A federação paulista possui cerca de 5000 afiliados, o que corresponde a 82% do total nacional. Assim chegamos a esse número.
13. http://noticias.r7.com/brasil/em-12-anos-2680-armas-de-praticantes-de-tiro-foram-roubadas-furtadas-ou-perdidas-21092015
14. “No final da década de 1990, havia no Brasil cerca de mil praticantes de tiro com arco, sendo 500 filiados à CBTarco. Hoje, não passam de 700, e somente 300, filiados.”, fonte: http://esporte.uol.com.br/olimpiadas/ultimas/2004/07/19/ult2276u1.jhtm - como os dados são de 2004 e a CBTarco ignorou solenemente meus e-mails, estou usando os dados mais pessimistas como base de contas, considerando um universo de 700 arqueiros.
15. oi, eu sou imprensa!
16. É um valor aproximado. No cálculo da média, tive que deixar de fora o hipismo que tem mais filiados do que likes (extremamente suspeito não? Deve ser lavagem de dinheiro isso aí) e estava fodendo com minha média-número-mágico.
nRT

Entre Reaças e Petralhas

Em novembro, os Estados Unidos da América terão sua 58ª eleição presidencial. A nação estadounidense, conhecida por seu fast food de qualidade duvidosa, paixão por armas de fogo e amor à democracia e aos direitos de seus cidadãos tem um sistema de votação complexo e intrincado, funcionando por meio de votos indiretos baseados em colégios eleitorais.

Para entender o negócio todo, talvez a forma mais simples seja transportá-lo à nossa realidade. Como funcionaria se tentássemos adotar o sistema de votação americano no Brasil?

Democratas e Republicanos

O artigo 2 da constituição americana define que os candidatos à presidência devem ter nascido no país, devem ter pelo menos 35 anos e serem residentes estadounidenses por um período não menor do que 14 anos. Os requisitos presidenciais são basicamente os mesmos do que são exigidos por aqui, então não haveriam grandes mudanças nessa área. Mas pode-se dizer que as semelhanças param por aí.

Para adaptar as eleições brasileiras ao formato estadounidense teríamos que jogar fora tudo o que imaginamos sobre partidos políticos. Esqueça essa confusão de 35 partidos, com mais traições do que uma temporada de Game of Thrones, siglas que não representam nada, legendas aleatórias, coligações estapafúrdias, mudanças de lado, partidos corinthianos e posicionamentos inconstantes. A política americana é baseada em dois partidos fortes e uma porção de partidos nanicos que não conseguem grande representatividade e dificilmente irão conseguir.

Da mesma forma como praticamente toda a representação politica em Obamaland pode ser associada com democratas ou republicanos, o similar pode ser aplicado no Brasil, dividindo a grande massa de políticos e eleitores atualmente ativos em dois grandes partidos opostos. Para facilitar a imaginação do leitor, podemos chamar esses dois partidos opostos de reaça e petralha. Isso não quer dizer que esses partidos seriam compostos somente por políticos atualmente afiliados ao PSDB e PT, mas sim às polaridades que esses partidos atualmente representam. Assim, partidos com convicções mais socialistas e progressistas, como PSOL, PCdoB e REDE se alinhariam nas trincheiras petralhas, enquanto partidos de orientação mais liberal e conservadora como PMDB, DEM e PR seriam agregados aos quadros dos reaças (percebam que, por aqui, democratas – DEM – e republicanos – PR – ficam do mesmo lado).

Primárias

Mas como essa enorme divergência de partidos de pensamentos tão distintos podem entrar em um acordo sobre quais candidatos eleger? Se mesmo com o atual sistema, certos partidos têm dificuldades em definir seus presidenciáveis (ou até mesmo os seus prefeituráveis[1]Fiquei imensamente supreso em saber que essa palavra realmente existe: http://www.folhadaregiao.com.br/Materia.php?id=97167), como esse problema se solucionaria em um sistema tão polarizado?

Essa é a idéia das eleições primárias. Nela, petralhas disputariam com outros petralhas e reaças com outros reaças, com o intuito de serem os representantes do partido nas eleições presidenciais finais, aonde apenas dois candidatos participam.

No atual contexto da política brasileira, poderíamos encontrar a seguinte disputa entre petralhas e reaças para as eleições de 2018:

partidos

Há um pequeno detalhe, porém: Em 1947, o Presidente Truman aprovou a vigésima segunda emenda, limitando o número de mandatos que qualquer presidente poderia exercer para apenas dois. Uma das razões seria a idéia de que permitir indefinidos mandatos poderia levar a uma espécie de monarquia. Hillary e Bill poderiam se revezar indefinidamente no poder e a família Clinton nunca deixaria a Casa Branca, por exemplo.

Assim, dois mandatos (podem ser consecutivos ou não) são o limite para qualquer presidente. Isso não só significa que nunca mais teremos os stand-ups do Excelentíssimo Presidente Obama mas também seria o fim da linha para FHC, Lula e Dilma disputarem novas eleições.

Sem a força política de Dilma e Lula, um outro candidato de ideologia parecida deveria entrar na disputa. Talvez, no atual contexto político, as opções mais viáveis seriam Jaques Wagner ou Aloísio Mercadante, ambos já tendo ocupado a cadeira de ministro-chefe da Casa Civil do governo Dilma. Para a chapa Petralha aqui exposta, escolhi Mercadante, pelo simples motivo que seria mais fácil desenhá-lo.

partidos2

Lacra Confirma (Top!)

A votação americana possui regras bem distintas das quais estamos acostumados no Brasil. Pra começar, evidentemente, ninguém é obrigado a ir votar, exatamente como uma democracia deveria ser. Assim, o índice de votações nas primárias é baixíssimo, com apenas cerca de 20% da população despendendo seu tempo de Netflix para escolher um candidato para disputar pelo seu partido.

As regras das eleições primárias variam de estado para estado. Nos Estados Unidos há estados que requerem que seus eleitores estejam vinculados ao partido para votar, e outros em que qualquer pessoa pode votar, mas em todos os casos, só é permitido votar em um dos partidos. O processo das primárias não ocorre simultaneamente em todos os estados, se estendendo (no caso deste ano) desde o começo de janeiro até o meio de junho, fazendo as discussões internas dentro dos partidos se prolongarem[2]Eleições primárias americanas por estado: http://www.uspresidentialelectionnews.com/2016-presidential-primary-schedule-calendar/. É um processo longo e chato, que deixaria por mais tempo a timeline do Facebook do cidadão brasileiro mais insuportável do que já é.

Os dois candidatos mais votados de cada partido são os escolhidos para, finalmente, disputar a corrida presidencial. Como é de se esperar, os candidatos derrotados nas primárias declaram apoio ao vencedor de seu partido e a campanha de cada um se estreita. Ao invés do segundo turno das eleições brasileiras atuais, onde há apenas um mês para as idéias dos dois candidatos serem confrontadas, esse processo duraria cerca de quatro meses, com diversos debates, confronto de idéias e, por ser Brasil, envolveria escândalos, troca de acusações, crimes federais e fim de amizades em redes sociais.

As eleições finais ocorrem na primeira terça-feira seguinte à primeira segunda-feira do mês de novembro, um conceito fácil de ser calculado mas que requer ler esta frase ao menos duas vezes para ser entendido.

A votação é feita usando o bom e velho método de papel e caneta, seguido de contagem manual. Os Estados Unidos foi um dos países que recusou o sistema de urnas eletrônicas por considerá-lo inseguro. Ironicamente, são aceitos votos por carta ou por e-mail de cidadãos que moram no exterior. Por conta desse sistema arcaico, a contagem dos votos pode levar dias (vide: Flórida, 2000).

Na segunda etapa do processo o número de eleitores costuma ser bem maior, mas, ainda sem a obrigatoriedade, geralmente ainda fica abaixo dos 50% da população.

eleicoes

Tudo ou nada

Uma característica comum às duas fases das eleições, que é certamente a maior diferença em relação ao atual sistema de votação no Brasil é o uso de um voto indireto. Os votos dos eleitores não são diretamente atribuídos aos seus candidatos, mas passam por uma segunda camada de eleição que é conhecida como “delegados eleitorais”. Assim, cada estado possui um determinado número de delegados. E o candidato que possuir mais votos por estado leva os votos de todos os delegados daquele estado - em um sistema chamado “The winner takes it all”; traduzindo: “fode ou sai de cima”.

O estado do Arizona, por exemplo, possui 11 delegados. Se um candidato receber os votos de 51% da população, ele recebe os votos dos onze, não proporcional. O número de delegados por estado também varia. O estado mais influente é a Califórnia, com 55 delegados, uma influência enorme em comparação a diversos estados com apenas 3. Essa divisão de peso é feita através do cálculo:

calculo-peso-eua

No caso americano, o primeiro número é fixo (dois senadores por estado) e o segundo número é proporcional à população. Assim, numa adaptação à República das Bananas, teríamos:

calculo-peso-br

Seguindo essa lógica, o peso de cada estado seria:

mapa-peso

São Paulo, com sua imensa população tem direito a 70 cadeiras na câmara dos deputados. Somando-se aos 3 Senadores, ele teria 73 delegados e, considerando que, independente da margem de diferença, o candidato que vencesse no estado levaria todos os 73 votos, a disputa das eleições teria uma grande plataforma voltada ao povo paulista. Os estados mais fracos possuem oito cadeiras na câmara e três senadores, portanto o mínimo de cada estado é de 11 delegados.

A maioria simples garante a vitória. Assim, com um total de 594 delegados, o primeiro candidato a obter pelo menos 298 votos é o feliz novo presidente do Brasil.

Teoricamente, os delegados não são obrigados a votar no candidato que se espera deles. Há estados que possuem leis para evitar essa traição e no geral isso não ocorre, então é uma hipótese que não será levada em conta. A eleição do vice-presidente é feita pelos mesmos delegados em dezembro do ano das eleições e novamente eles podem mudar o voto para vice independente do presidente eleito, mas isso também não ocorre, para o alívio do PMDB americano.

Ey-ey-ey-mael

E se os ideais de um político não se encaixam nem com os Reaças e nem com os Petralhas? Apesar da alta cobertura da imprensa ser dedicada quase exclusivamente aos dois gigantescos partidos principais, há uma infinidade de partidos minúsculos nos Estados Unidos que podem entrar na disputa final das eleições. No Brasil, o mesmo ocorreria com determinados partidos, seja por defenderem bandeiras muito extremistas que não teriam representatividade nos partidos maiores, seja em nome de uma maior indepêndencia. Sem contar que qualquer indivíduo pode se candidatar como um candidato independente sem estar filiado a nenhum partido.

Nas eleições brasileiras, esse seria o destino, por exemplo, do PSTU, que provavelmente se recusaria a ser um Petralha. O único partido nanico com alguma representatividade no cenário nacional seria realmente o PV - e essa característica é refletida na política americana, aonde o “green party” é um dos poucos a ser levado a sério fora do eixo Republicano-Democrata.

Sim, porque dentre os outros concorrentes independentes das eleições americanas estão partidos como o “Prohibition Party”[3]Prohibition Party: http://www.prohibitionparty.org/, fundado em 1869 e altamente baseado em ideais cristãos pregando o fim do consumo de álcool ou o Partido “Rent is too damn high”. Essa liberdade toda para qualquer cidadão se candidatar torna as primárias independentes americanas um circo cômico. Em 2016, o criador do Creative Commons se candidatou prometendo que renunciaria após aprovar uma lei para mudar o financiamento de campanha[4]Canidatura de Lawrence Lessig: http://gizmodo.com/meet-the-first-digital-liberties-presidential-candidate-1723497880. Entre outros candidatos bizarros, há John McAfee (sim, do anti-vírus)[5]John McAfee: http://gizmodo.uol.com.br/john-mcafee-jeff-wise/ e Vermin Supreme, que usa uma bota como chapéu e possui uma plataforma de governo que quer tornar obrigatório a todos os cidadãos americanos escovar os dentes, além de financiamento tecnológico para a construção de uma máquina do tempo e promessa de um pônei para cada americano[6]Vermin Supreme: http://www.verminsupreme.com/.

Para conseguir chegar ao ballot final[7]Ballot é o papel de votação onde cada cidadão preencherá o seu voto. Figuram nos ballots apenas os candidatos aprovados de cada partido., os candidatos independentes precisam ter uma votação considerável nas primárias e serem qualificados nos estados. Republicanos e Democratas são automaticamente qualificados (os Reaças e Petralhas também seriam em nosso cenário), porém para os independentes e partidos nanicos, cada estado possui uma regra de qualificação diferente[8]As regras de qualificação variam conforme o estado e podem ser coisas simples como um número mínimo de votos, uma determinada arrecadação de campanha ou fórmulas complexas que levam em conta até eleições passadas dos partidos. As regras são realmente muito complexas e estudá-las pode lhe garantir horas de diversão sanando as próprias confusões aonde você enfiará seu cérebro. Se te interessar saber mais sobre isso, tem esses dois links aqui: https://ballotpedia.org/Ballot_access_for_presidential_candidates e https://en.wikipedia.org/wiki/Ballot_access e nem todos os partidos terminam as primárias com um representante.

Os eleitores sempre têm a última opção que é o “write-in”, aonde eles ignoram todos os candidatos acima e simplesmente escrevem o nome de quem eles desejam votar. Aí residiria a chance de termos Macaco Tião como presidente do Brasil.

Retroatividade

E se as regras americanas fossem válidas já nas eleições de 2014? Considerando que nas primárias a candidata Petralha tenha sido a Dilma Roussef e o candidato Reaça tenha sido Aécio Neves, o método de pontuação de delegados por estado influenciaria no resultado final?

Analisando o resultado obtido por cada candidato por estado:

EstadoDelegadosVencedor
Acre11Aécio Neves
Alagoas12Dilma Rousseff
Amapá11Dilma Rousseff
Amazonas11Dilma Rousseff
Bahia42Dilma Rousseff
Ceará25Dilma Rousseff
Distrito Federal11Aécio Neves
Espírito Santo13Aécio Neves
Goiás20Aécio Neves
Maranhão21Dilma Rousseff
Mato Grosso11Aécio Neves
Mato Grosso do Sul11Aécio Neves
Minas Gerais56Dilma Rousseff
Pará20Dilma Rousseff
Paraíba15Dilma Rousseff
Paraná33Aécio Neves
Pernambuco28Dilma Rousseff
Piauí13Dilma Rousseff
Rio de Janeiro49Dilma Rousseff
Rio Grande do Norte11Dilma Rousseff
Rio Grande do Sul34Aécio Neves
Rondônia11Aécio Neves
Roraima11Aécio Neves
Santa Catarina19Aécio Neves
São Paulo73Aécio Neves
Sergipe11Dilma Rousseff
Tocantins11Dilma Rousseff

Nas eleições de 2014, Dilma venceu em 15 estados, Aécio Neves em 12. Aécio venceu em São Paulo, o que teria lhe garantido o voto dos 73 delegados do estado. Mas mesmo assim, o resultado final ainda seria favorável à candidata petista:

Dilma Rousseff33656.57%
Aécio Neves25843.43%

Dilma teria a soma de todos os delegados de 15 estados, o que lhe garantiria 336 votos de delegados, o equivalente a 56,57% dos votos gerais. Assim, esse seria um dos casos nos quais o candidato vencedor teve também a maioria dos votos da população. Mas no sistema atualmente adotado nos Estados Unidos, nem sempre isso ocorre.

Por quatro vezes na história o sistema americano já elegeu um candidato que não teve a maioria dos votos do povo, mas que teve uma combinação de votos de delegados suficiente para lhe garantir a vitória. A última vez que isso ocorreu foi em 2000, entre George W. Bush e Al Gore. O candidato democrata teve 50.999.897 votos, contra 50.456.002 do republicano. Porém, os votos de Bush foram suficientes para que ele vencesse em 30 estados, contra 20 de Al Gore, lhe garantindo o voto total de 271 delegados, contra 266 do adversário.

Não é difícil imaginar o mesmo acontecendo no Brasil cedo ou tarde se esse estilo de eleição fosse adotado. Apenas os delegados da região sudeste já seriam o suficiente para garantir a um candidato 191 votos dos 298 necessários. Um candidato que tivesse pouco menos de 50% dos votos absolutos em cada um dos estados da região sudeste teria, no final, zero votos desses delegados. Mesmo com ele obtendo 100% dos votos em outros estados, os votos indiretos poderiam não ser suficientes para compensar essa perda.

O atual sistema eleitoral brasileiro parece não ser o culpado pelos péssimos políticos que estamos elegendo. Apesar de idéias que aparentam ser boas, como eleições primárias e, definitivamente, a não-obrigatoriedade do voto, a eleição indireta americana parece menos democrática do que a bagunça gostosa (eu sei, eu sei) que o TSE organiza por aqui.

Se dependesse de mim, porém, as eleições presidenciais não seriam decididas nem por um sistema nem por outro. Eu provavelmente usaria o método do SBT na Casa dos Artistas: colocaria o Silvio Santos numa tarde de domingo telefonando para dez cidadãos brasileiros aleatórios, anotando e influenciando no voto deles. O que eles escolherem, eu aceitaria.

No Abravanel eu confio.

Fontes e referências   [ + ]

1. Fiquei imensamente supreso em saber que essa palavra realmente existe: http://www.folhadaregiao.com.br/Materia.php?id=97167
2. Eleições primárias americanas por estado: http://www.uspresidentialelectionnews.com/2016-presidential-primary-schedule-calendar/
3. Prohibition Party: http://www.prohibitionparty.org/
4. Canidatura de Lawrence Lessig: http://gizmodo.com/meet-the-first-digital-liberties-presidential-candidate-1723497880
5. John McAfee: http://gizmodo.uol.com.br/john-mcafee-jeff-wise/
6. Vermin Supreme: http://www.verminsupreme.com/
7. Ballot é o papel de votação onde cada cidadão preencherá o seu voto. Figuram nos ballots apenas os candidatos aprovados de cada partido.
8. As regras de qualificação variam conforme o estado e podem ser coisas simples como um número mínimo de votos, uma determinada arrecadação de campanha ou fórmulas complexas que levam em conta até eleições passadas dos partidos. As regras são realmente muito complexas e estudá-las pode lhe garantir horas de diversão sanando as próprias confusões aonde você enfiará seu cérebro. Se te interessar saber mais sobre isso, tem esses dois links aqui: https://ballotpedia.org/Ballot_access_for_presidential_candidates e https://en.wikipedia.org/wiki/Ballot_access
nRT

Viajar é preciso

Viajar pelo mundo é um sonho comum. Há tanto a se ver, tantos lugares para visitar, comidas para comer, montanhas a escalar, rios a nadar, praias a surfar, florestas para se perder, museus a explorar que uma vida parece pouco para se conhecer tudo. E realmente é. Mas quanto tempo exatamente seria necessário para conhecer o mundo?

Para começar, é preciso estabelecer a primeira definição: Como seria essa viagem? É possível viajar de várias formas, como já descobriram os Beatles em sua fase psicodélica. A forma mais básica e barata de viajar talvez seja simplesmente sair andando por aí.

Método 1: Saia andando por aí

O mundo é um negócio grande. São 510.072.000 km² (ou 5,1x10^8 km², se quisermos usar notações científicas aproximadas, que facilitariam nossas contas). Destes, 149 milhões de km² são de terra e 361 milhões km² de água, sem contar com os 14 milhões de km² da Antartica, que, tecnicamente, deveriam entrar na categoria "água".

Como não podemos andar sobre as águas (salvo certas exceções[1]inri-cristo), então podemos desconsiderar a viagem por mais da metade do planeta. Mesmo porque não haveria muito o que se ver a não ser uma grande imensidão azul molhada.

Não seria preciso também andar por cada centímetro quadrado do planeta. O objetivo é ver de tudo e não pisar em cada pedaço de chão. Assim, podemos definir uma área de visão e, a partir dela, definir quanto seria necessário andar para cumprirmos o objetivo.

Em uma gigantesca planície, um homem de 1,80m consegue enxergar até 5km de distância[2]ver: http://www.livescience.com/32111-how-far-away-is-the-horizon.html e http://blogs.discovermagazine.com/badastronomy/2009/01/15/how-far-away-is-the-horizon. Parece muito pouco - e realmente é. Há outros efeitos a se levar em conta, como a refração atmosférica. No alto de uma montanha, evidentemente seria possível enxergar até centenas de quilômetros de distância, porém, em um vale a visão é reduzida. Outras variáveis, como a neblina ou um amontoado florestal também são limitantes, então, considerando todas as médias, talvez um campo de visão de 5km seja suficiente para nossas contas[3]Sabendo que, quanto mais alto, maior o campo de visão, seria possível economizar alguns dias, aumentando o campo de visão. Pode-se fazer isso andando por aí de salto ou de perna-de-pau, por exemplo..

A velocidade média de caminhada é de 5 km/h. Reservando tempo para dormir, comer e tomar um vinho e um banho e caminhando 9 horas por dia, seriam necessários mais de 900 anos para se andar pelo mundo todo. 46 anos só considerando a Austrália. A idéia básica seria seguir uma linha longitudinal indo e voltando, o que ainda ocasionaria em passar algumas vezes pelo mesmo lugar (para voltar de penínsulas, por exemplo).[4]Com uma perna de pau de dois metros, o raio de visão médio pode chegar a 7,1km e o tempo de viagem pode ser reduzido para 860 anos. Com um zepelin voando a 500m de altura, raio de visão de 80km e velocidade de 14km/h, em pouco mais de 243 anos é possível ter visto o entediante mundo todo.

saia andando...

Seguindo esse algoritmo, só para andar pelo deserto do Saara, seriam necessários mais de 50 anos. Mas também seria possível andar por toda a cidade de São Paulo, com seus 1500 km² em pouco mais de 4 dias, o que não faz muito sentido, já que esse é o tempo apenas para ir de carro de uma ponta a outra da marginal tietê.

Para percorrer áreas urbanas, o campo de visão é limitado. Dessa forma seria melhor definir “conhecer” uma cidade caso você ande por todas as ruas dela. Usando São Paulo como referência, ela possui 17200km de ruas o que, caminhando à 5km/h, nos dá 3440 horas caminhando ou equivalente a 382 dias para conhecer seus 1521km².

Seria equivalente a ter um raio de visão de apenas 44,2 metros; o que parece bastante razoável em uma metrópole onde se estivesse rodeado de prédios, a visão do horizonte ser limitada a algumas dezenas de metros até o amontoado de tijolos mas próximo.

Utilizando o raio de visão de São Paulo como parâmetro, nossa viagem se torna 200 anos mais longa.

Assim, o próprio Matusalem, homem mais velho da história do qual se tem registro (ao menos assim diz a biblia), não conseguiria andar o mundo todo ao longo dos seus 969 anos de vida.

Método 2: Pacotes de viagem

Nem todos nós, porém, temos 900 anos sobrando pra sair andando por aí.

A maioria de nós, na verdade, possui três semanas por ano e ânimo só o suficiente pra comprar um pacote daquela compania de viagens popularesca, de três letras que eu não vou dizer o nome aqui porque eles não responderam meus e-mails.

Eles oferecem um pacote que permite "conhecer" 9 países em 23 dias. Seguindo a lógica, seria possível visitar todos os 196 países do globo em pouco mais de 500 dias. Com 30 dias de férias a cada 335 dias miseráveis de trabalho, uma pessoa conseguiria visitar todos os países em cerca de 25 anos.

Método 3: Proporcional ao número de habitantes

Excursões são um saco e sair andando por aí talvez não seja a forma de viagem mais eficiente. Só para caminhar pelos mais de 9 milhões de km² do deserto do Saara, levaria mais de 57 anos. Como passar 50 anos andando pelo deserto não parece ser o tipo de turismo que agradaria muita gente, eu acabei desenvolvendo um próprio sistema estimativo de viagem.

Após alguns anos viajando por aí, acredito que conheço um pouco sobre viagens. Sei, com alguma experiência, que o tempo necessário para conhecer uma cidade como Londres, com seus 1500km² e quase 9 milhões de habitantes é muito maior do que para conhecer Dar Es Salaam, na Tanzânia, com os mesmos 1500km², mas com menos de 1,4 milhões de habitantes.

A idéia então se baseia no conceito que cidades maiores demograficamente precisam de mais tempo para serem exploradas. Quanto mais pessoas habitam uma cidade, mais coisas há para se conhecer nela. Isso pode ser verdade para Nova York, Londres, San Francisco, Tokio, São Paulo, Buenos Aires e pode não ser tanta verdade para as densamente habitadas Chongqing (China), Dhaka (Bangladesh) ou Lagos (Nigeria). Mas o contrário também pode ocorrer e cidades com pouquíssimos habitantes podem ser tão ricas que seria necessário mais tempo para desfrutá-las, como Te Anau (Nova Zelândia, 1900 habitantes, local dos dois mais lindos e fantásticos fjords do hemisfério sul) ou o Serengeti (um dos maiores parques naturais da África, com 30000km² e nenhum habitante) - sem contar, novamente a Antártida, o único continente com uma população de zero habitantes, mesmo com os governos do Chile e Argentina acusados de enviarem mulheres grávidas para terem filhos no continente nascidos com a nacionalidade antartica.

Na média, a idéia é encontrar um equilíbrio e o tempo desnecessário que seria gasto a mais em cidades populosas e entediantes pode ser usado para compensar as cidades pequenas e incríveis.

O problema básico dessa abordagem é evidente: é impossível conhecer tudo (não que seja realmente possível caminhar 900 anos por aí). Por exemplo: se comêssemos pizza todas as noites em um lugar diferente, seriam necessários 13 anos para termos ido em todas as pizzarias de São Paulo[5]Haja mozzarela: http://noticias.r7.com/economia/noticias/sao-paulo-consome-mais-da-metade-das-pizzas-produzidas-no-brasil-20100710.html.

Seis meses talvez seja um tempo razoável para se dizer que se conhece uma grande metrópole. Nas contas adotadas, qualquer cidade com mais de 5 milhões de habitantes exigiu um período de seis meses de visitação. Talvez não seja o suficiente para metrópoles como Londres e New York, mas honestamente, uma vida não é o suficiente para essas cidades.

Existem hoje 75 cidades com mais de 5 milhões de habitantes. Dentre elas, 18 estão na China. Estados Unidos e Índia agraciam a lista com mais 9 cidades cada um.[6]Demographia. Excelente pdf: http://www.demographia.com/db-worldua.pdf (cuidado: pdf) Considerando o prazo máximo de seis meses, seriam cerca de 40 anos para conhecer as 100 cidades mais populosas do mundo.

Mas cidades populosas são apenas uma pequena fração do que há para ser conhecido. Convenientemente tomando a Alemanha como exemplo[7]Três motivos foram escolhidos para tomar a Alemanha como parâmetro: experiência pessoal de um dos autores (que atualmente mora em Berlim), tamanho do país (por ser pequeno, mas não tanto, é mais fácil fazer as contas) e facilidade em encontrar dados disponíveis (o Brasil infelizmente não possui tantos dados disponíveis sobre suas cidades). E há um motivo extra: porque eu quero.: São 2059 cidades[8]Lista de cidades na Alemanha: https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_cities_and_towns_in_Germany (considerando aquelas que possuem uma administração independente), sendo que 16 delas possuem mais de 500 mil habitantes e apenas 3 delas possuem mais de 1 milhão de habitantes. Seguindo a distribuição de viagem por densidade demográfica, seriam quatro meses para conhecer Berlim (o que talvez não seja o suficiente), dois meses para Hamburgo e 34 dias para Cologne (o que seria talvez um exagero). Em dois anos e meio seria possível conhecer completamente todo o país. Fácil se comparado com o Brasil, que dependeria de quase 18,5 anos de turismo.

No total, o mundo todo dependeria de 692,5 anos de viagem para ser conhecido. Um resultado que não foge muito dos 900 anos de caminhada no quesito “impossibilidade”, portanto estranhamente acurado.

Método 4: Desista (ou não)

Se um homem viajasse por 700 anos para conhecer o mundo todo, ao final de sua expedição, o mundo seria diferente do que era quando ele começou. Mais do que isso: as viagens tornaram o homem diferente. Um mesmo homem não sobe a mesma montanha duas vezes, já que o homem que desce é diferente daquele que sobe, porque a montanha muda o homem.

A impossibilidade de conhecer tudo torna a aventura ainda mais empolgante. Sempre há algo novo pra aprender, um novo lugar pra visitar, uma cerveja diferente pra beber, uma experiência diferente para se ter.

Mesmo sabendo que é impossível, a diversão é tentar. Então o melhor a fazer é sair andando por aí logo.

Fontes e referências   [ + ]

1. inri-cristo
2. ver: http://www.livescience.com/32111-how-far-away-is-the-horizon.html e http://blogs.discovermagazine.com/badastronomy/2009/01/15/how-far-away-is-the-horizon
3. Sabendo que, quanto mais alto, maior o campo de visão, seria possível economizar alguns dias, aumentando o campo de visão. Pode-se fazer isso andando por aí de salto ou de perna-de-pau, por exemplo.
4. Com uma perna de pau de dois metros, o raio de visão médio pode chegar a 7,1km e o tempo de viagem pode ser reduzido para 860 anos. Com um zepelin voando a 500m de altura, raio de visão de 80km e velocidade de 14km/h, em pouco mais de 243 anos é possível ter visto o entediante mundo todo.
5. Haja mozzarela: http://noticias.r7.com/economia/noticias/sao-paulo-consome-mais-da-metade-das-pizzas-produzidas-no-brasil-20100710.html
6. Demographia. Excelente pdf: http://www.demographia.com/db-worldua.pdf (cuidado: pdf)
7. Três motivos foram escolhidos para tomar a Alemanha como parâmetro: experiência pessoal de um dos autores (que atualmente mora em Berlim), tamanho do país (por ser pequeno, mas não tanto, é mais fácil fazer as contas) e facilidade em encontrar dados disponíveis (o Brasil infelizmente não possui tantos dados disponíveis sobre suas cidades). E há um motivo extra: porque eu quero.
8. Lista de cidades na Alemanha: https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_cities_and_towns_in_Germany
nRT

Rios de dinheiro

Resposta rápida e direta: Não.

Mas eu não sou pago para responder perguntas monossilabicamente. Por Deus, eu não sou pago nem pra escrever esses textões pseudo-científicos de gosto e acuracidade duvidosos, mas o faço mesmo assim.
Então continue lendo e você vai ver o quão funda é a caixa-forte do pato...

O comportamento de uma criatura pequena em um amontoado de moedas deveria ser mais parecido com o que é visto no filme "O Hobbit" do que os mergulhos ornamentais do pato mais rico de Patópolis.

cartoon

Mas nadar em dinheiro é um sonho tão enraizado no âmago de uma geração que cresceu assistindo Ducktales pelo SBT que matemática hipotética talvez não fosse o suficiente. O ideal mesmo seria testarmos, efetuando o experimento e analisando os resultados.

Para começar, precisaremos saber:

  1. peso do Tio Patinhas
  2. tamanho da Caixa-forte
  3. riqueza contida

1) Um pato normal pesa cerca de 1,5kg. Patos normais não interessam aqui.

Na história de 1963 “For old Dime’s Sake”[1]For old dime’s sake, Carl Barks, 1963:
http://coa.inducks.org/story.php?c=W+US+++43-01&pg=1
, a Maga Patológica (sério, já pararam pra pensar o quanto esse nome é genial?) mede o Tio Patinhas e conclui que ele possui cerca de 90 cm de altura (ou 3 feet, se formos adotar sistemas métricos sem sentido). Nas proporções humanas, se uma pessoa de aproximadamente 1,80 pesa cerca de 90kg, poderíamos assumir que o peso do pato seria de algo em torno de 45kg. Mas assumir proporções humanas para um pato seria como assumir ideais religiosos em um estado laico, então não devíamos fazer isso.

Para uma alternativa mais realista, precisaríamos saber o peso e altura corretos de um pato fictício. Por sorte, a Marvel mantém um banco de dados público com os detalhes anatômicos de todos seus personagens. [2]Base de personagens da Marvel: http://marvel.com/characters/browse Também por sorte, a Marvel também possui um pato fictício em seu elenco. Comparado com Howard, o pato [3]Perfil de Howard, the duck no site oficial da Marvel: http://marvel.com/characters/981/howard_the_duck, o Tio Patinhas pesaria algo em torno de 20kg, um valor condizente com seus ossos pneumáticos e ausência de calças.

2) Carl Barks, criador do Tio Patinhas e de boa parte de Patópolis descreveu a caixa-forte como “um prédio de aproximadamente 12 andares”. O desenhista Don Rosa, constantemente considerado o herdeiro de Carl Barks nas histórias de Ducktales chegou até mesmo a criar as plantas da construção:

Plantas da caixa-forte por Don Rosa

Plantas da caixa-forte por Don Rosa

Pelas plantas oficiais apresentadas, a caixa-forte teria cerca de 39 metros de altura por 36 metros de lado. É possível ver 12 andares (mais o subsolo) de escritórios, tomando cerca de 9 metros da caixa-forte, restando para o dinheiro um espaço cúbico de 39mx36mx27m.

3) Como calcular a riqueza do pato?

Scrooge-money

Não é como se pudéssemos simplesmente achar o perfil dele entre os bilionários da Forbes…

http://www.forbes.com/special-report/2013/fictional-15/scrooge-mcduck.html

É, esse foi fácil. Com certa freqüência, a Forbes publica uma lista com as mais ricas celebridades fictícias. [4]Forbes Fictional 15: http://www.forbes.com/special-report/2013/fictional-15/index.html De acordo com dados de 2013, Tio Patinhas lidera a lista, com 65,4 bilhões de dólares[5]Perfil de Tio Patinhas na Forbes: http://www.forbes.com/special-report/2013/fictional-15/scrooge-mcduck.html - o suficiente para comprar a Johnson & Johnson ou talvez o Uruguai.

Para o experimento, precisamos:

  1. um pato de aproximadamente 20kg
  2. uma piscina de 39 metros de profundidade
  3. 65 bilhões de dólares.

65 bilhões de dólares (o arredondamento da fortuna do Tio Patinhas custou meros 400 milhões) ocupariam um espaço considerável. De acordo com a teoria de empacotamentos aleatórios, as moedas jogadas aleatoriamente dentro do cofre irão ocupar um volume maior que apenas o volume das moedas somadas, já que haverá espaços vazios entre elas[6]Random close pack:
https://en.wikipedia.org/wiki/Random_close_pack http://www.rain.org/~mkummel/stumpers/30jan98a.html
.

Tipo de moedaDiâmetro (mm)Espessura (mm)Volume (mm³)Valor unitário (US$)Quantidade necessáriaVolume total (m³)Volume total ocupado (m³) - 60% de aproveitamentoOcupação do cofre
pennys (1 cent)19,051,52433,230,016.500.000.000.0002.816.026,824.693.378,0312.381%
quarters (25 cent)24,261,75808,930,25260.000.000.000210.321350.535,19924,70%
moeda de dólar26,4921102,26165.000.000.00071.646,86119.411,43315%
um real
(câmbio: 3,80)
271,951116,480,263247.000.000.000275.771,24459.618,741212,46%
ouro (densidade: 19300kg/m³, cotação 34,97 U$/g)26,4921102,26236,8274.489.979302,56504,271,33%

[7]Especificações de moedas:
http://www.usmint.gov/about_the_mint/?action=coin_specifications
https://pt.wikipedia.org/wiki/Moeda_de_um_real

Assim, apesar de possuir uma bem protegida caixa-forte, a fortuna do Tio Patinhas dificilmente se encontra fisicamente toda lá dentro. Boa parte de sua riqueza deve estar investida em suas minas de ouro e ações da Disney.

Assumimos então que apenas um terço de sua fortuna está guardada nos cofres.

Para o experimento, precisamos:

  1. um pato de aproximadamente 20kg
  2. uma piscina de 39 metros de profundidade
  3. 21,5 bilhões de dólares.

Com um peso de 8,1 gramas, uma moeda de um dolar tem a densidade de 7350kg/m³. Com uma ocupação de 60%, o conteúdo do cofre tem uma densidade de 4410kg/m³. Ou seja, mergulhar de cabeça nesse cofre é duas vezes pior do que cair de cabeça no asfalto (2200kg/m³). O empuxo gerado pelo “fluído de moedas” seria suficiente para manter um morador de Patópolis (cuja densidade é aprox 1000kg/m³) 78% fora do fluído fazendo-o afundar cerca de 20 cm.

Um ser humano ou um hobbit, ambos com uma densidade aproximada de 1000kg/m³ também não conseguiria nadar em moedas puras. O sonho de nadar em rios de dinheiro parece mais distante...

O que não quer dizer que não poderíamos ter diversão. Particularmente, com esses recursos em mente, eu tentaria criar a maior piscina de bolinhas do mundo. Pela teoria dos empacotamentos aleatórios, a densidade média de ocupação de esferas gira em torno dos 64% (curiosidade: se quiséssemos encher nossa caixa-forte com M&Ms, esse valor sobe para 68%). Para encher os 37908m³ com bolinhas de plástico, de cores variadas, com 6,5cm de diâmetro e um peso aproximado de 5 gramas cada, precisaríamos então de 169 milhões de bolinhas. Comprando elas pela amazon, em pacotes de 100, gastaríamos 25 milhões de dólares, barateando ainda mais o experimento.

Para o experimento, precisamos:

  1. um homem feliz
  2. uma piscina de 39 metros de profundidade
  3. 169 milhões de bolinhas coloridas

A densidade das bolinhas é de aproximadamente 33,38 kg/m³. Com a taxa de ocupação de 64%, nosso “fluído de bolinhas” fica com a densidade de 21 kg/m³, 50 vezes menor que a de um homem. Ou seja, dessa vez o pulo de cabeça será eficaz e o homem conseguirá fazer os mergulhos que o pato faz na abertura do desenho.

Talvez eficaz até demais. Num primeiro instante, o corpo será freado pelo atrito com as bolinhas. Porém, assim que ele tentasse se movimentar (tipo nadar), as bolinhas se moverão, abrindo espaço para descer mais para o fundo. Nadar para cima assim seria tão difícil quanto flutuar no mar da Sícilia com uma bigorna amarrada à perna. Quanto mais movimentos, mais as bolinhas se movimentarão, abrindo espaço para afundar mais rápido, num efeito de areia movediça.

Em pouco tempo, ele atinge o fundo do caixa-forte. Apesar de ter dezenas de metros de plástico acima dele, por serem leves bolinhas, a pressão do ar é apenas ligeiramente mais alta; algo equivalente a estar meio metro debaixo d´água. Mas ele não vai sair de lá. Mesmo que ele organize as bolinhas, empilhando-as para atingir a compactação máxima (74%), a densidade ainda seria insuficiente para nadar mais de 30 metros para cima. A única chance de sobrevivência seria destruir as bolinhas de plástico, para compactar todo o material no fundo do caixa-forte e sair caminhando para cima.

Porém, melhor fazer isso rápido para não ficar sem ar. O excesso de bolinhas irá impedir uma troca de ar com a superfície. A pouca movimentação de ar que houver será com a tendência de levar o oxigênio para cima, já que expiramos gás carbônico, que é mais pesado que o oxigênio. Andar por todo o fundo do caixa-forte para aproveitar esse ar também não será muito fácil; com a densidade 22 vezes maior que a do ar, o deslocamento será bastante prejudicado. Baixa oxigenação, com alto esforço físico para movimentação não deve acabar bem. À medida que o oxigênio se rarefaz, o esforço para respirar aumenta. Em aproximadamente 5 horas cai-se em uma sonolência profunda seguida de coma[8]Quanto tempo você sobreviveria se fosse enterrado vivo? http://io9.com/heres-how-long-you-can-survive-after-being-buried-aliv-1456805375.

piscina-de-bolinhas

As dicas para quem quiser construir sua própria piscina de bolinhas olímpica é: colocar uma escada e me chamar para brincar nela. E tomem cuidado com crianças. Mesmo para um pato de aproximadamente 20kg como o nosso amigo bilionário, a caixa-forte pode ser uma armadilha mortal.

Talvez até mesmo para um pato convencional (este é o tipo de artigo aonde “convencional” é um adjetivo que faz sentido para um pato) uma piscina de bolinhas seja uma armadilha mortal. Os patos possuem penas impermeáveis (daí que vêm o nome “duck tape”: a fita foi criada para simular as penas dos patos e proteger da água as munições dos soldados durante a guerra[9]Duck tape ou Duct tape? http://www.octanecreative.com/ducttape/duckvsduct.html) e uma glândula uropigial, que produz um óleo que ajuda o pato a flutuar. Isso talvez explique o fato do Pato Donald não usar calças, mas sair do banho com uma toalha enrolada na cintura: é para tirar o excesso de óleo[10]Por que o pato não afunda na água? http://diariodebiologia.com/2010/10/por-que-o-pato-nao-afunda-na-agua.
Sem água para boiar, talvez o pato afunde.

Para o experimento, precisamos:

  1. um pato
  2. uma piscina de bolinhas normal

Se alguém puder jogar um pato numa piscina de bolinhas, por favor: filme e me mande o link do vídeo no youtube.

Fontes e referências   [ + ]

nRT

Que a força esteja com você

Desde que a galera começou a matar uns aos outros usando pólvora, a arte da esgrima foi destronada de seu propósito militar, sendo hoje utilizada como prática esportiva ou diversão para aquele pessoal nerd que joga action RPG. Os filmes Star Wars, entretanto, trouxeram de volta a luta de espadas, removendo os combatentes de um cenário medieval e colocando em um contexto futurista, com luzes brilhantes auto retráteis que causam um efeito legal nas decapitações.

Com a chegada de um novo filme da franquia, ressurge em nossos coraçõezinhos nerds aquela vontade de ter o sabre de luz próprio, que realizaria nosso sonho de fatiar e torrar o pão simultaneamente.

Aos entusiastas dos trabalhos manuais, podemos tornar esse sonho realidade tão cedo quanto possível. Então pegue a cartolina, o tubo de cola, compre alguns milhares de lasers, descole um buraco negro no eBay e leia nosso pequeno manual de como construir seu próprio sabre de luz!

Lasers!

Lasers são legais pra caramba. São tão legais que é até difícil conceber que eles não passam de um simples feixe de luz, um punhado de fótons se movendo juntos na mesma direção.

No Universo Star Wars, eles são a base de praticamente todo equipamento bélico, das pistolas dos stormtroopers aos raios destruidores de planetas da estrela da morte. É natural imaginar, portanto que nossos sabres de luz sejam compostos por poderosos raios laser.

Até o governo americano está investindo em equipamentos armamentícios. Um laser capaz de derrubar drones [1]Lasers da marinha americana: http://gizmodo.com/5994074/watch-a-navy-laser-gun-blast-a-drone-right-out-of-the-sky já está equipando navios da marinha americana. Uma das principais vantagens de armas laser é o custo de disparo: cada tiro sai por apenas um dólar. Uma pechincha, ainda mais se pensarmos que, em 2000, a Marinha Britânica ganhou o prêmio igNobel da paz por ordenar a seus soldados que, por conta de corte de gastos, ao invés de fazer disparos durante os treinamentos, os oficiais deviam posicionar a arma e um marujo gritaria “BANG” [2]prêmio ignobel da paz para a marinha britânica. http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/757788.stm.

nolifeformaboard

A aeronáutica americana também tem planos semelhantes: a idéia é colocar um laser de mais de 100kW em um avião até 2022 [3]lasers em um avião http://breakingdefense.com/2015/05/lasers-on-a-plane-air-force-wants-fighter-firing-100-kilowatts-by-2022/. É potência suficiente para destruir mísseis inimigos e drones, mas talvez não o suficiente para colocarmos em nosso sabre de luz.

Se quisermos arrancar braços e pernas com uma cauterização eficiente de forma a evitar aqueles banhos de sangue de Kill Bill, que poderiam causar curto-circuito nos controles das naves ou tornar o filme impróprio para menores de 16 anos, o sabre de luz teria que evaporar todo o líquido da região com uma profundidade de, digamos, 5 cm. Para uma margem de segurança suficientemente gorda de uma pessoa com uma barriga de 1m de circunferência, o corte transversal resultaria em uma área de aproximadamente 0,07957 m^2. A cauterização de 5 cm de cada lado resultaria num volume de carne e gordura de 0,008 m^3.

Considerando como parâmetro a carne bovina, que possui uma densidade de 1070kg/m^3, esse volume corresponderia a 8,5kg de carne. Com o calor específico de 3,14 kJ/(kg°C) [4]calor-especifico http://jaguar.fcav.unesp.br/lascala/links/Termodinamica03.pdf, seria necessária uma energia de 5187kJ para elevar a temperatura de 36°C a até aproximadamente 230°C (temperatura do óleo fervendo), o que talvez fosse o suficiente para cortar e cauterizar o indivíduo em questão. Considerando que um golpe de sabre leve meio segundo para atravessar o corpo do cidadão (numa estimativa lenta e conservadora), nosso sabre de luz consumiria 10,37MW. Uma lâmpada incandescente, para efeito decomparação, consome 60W.

Um laser comum, daqueles de chaveirinho, usados para entreter gatos possui algo em torno de 5 miliWatts. Seriam necessários mais de 2 bilhões deles, atrás de uma lente convexa para construir nosso sabre de luz. Evidentemente que seria um experimento potencialmente perigosíssimo. Lasers de 1 watt já são poderosos o suficiente para colocar fogo em certos materiais e provocar queimaduras na pele. O que faz parecer extremamente irresponsável a venda liberada destes lasers de 3.5W[5]Wicked Lasers: http://www.wickedlasers.com/ - extremamente propícios para nossa produção manual de sabres de luz, afinal bastariam 3 milhões deles para obtermos a potência necessária para cortarmos o braço do amiguinho. Por 400 obamas cada um, acredito que valha a pena.

sabre_base

A força

Os sabres de luz certamente não são movidos a pilhas. Uma pilha AA tem uma potência de 2.6W. Isso significa que nossa criação gastaria cerca de 4 milhões de pilhas por hora. Seus pais provavelmente não reclamariam mais de comprar pilhas pro carrinho de controle remoto. Uma bateria de iPhone é capaz de fornecer um pouco mais: 8.75W. O que seria o suficiente para abastecer o nosso sabre de luz por um milonésimo de segundo - um pouco de tempo a mais do que ela suporta abastecer um iPhone comum. Cada uma das 20 usinas de Itaipu gera 750MW, então, com um cabo de amperagem suficiente, talvez dê pra ligar o sabre diretamente na rede elétrica.

Para um pouco mais de mobilidade, é possível usar 14 motores V10 de fórmula 1 para abastecer os quase 14000 cavalos de potência que o sabre irá consumir.

sabre_eletricidade

É energia demais até mesmo para os jedis, que produzem a própria força. O Yoda, por exemplo, só consegue produzir 19.2KW [6]How much force can Yoda output? https://what-if.xkcd.com/3/.

Limitadores

Lasers, assim como sitcoms da CBS, não sabem a hora de parar. Nosso sabre de luz teria seu feixe se extendendo pelo Universo, provocando um estrago legal se usado em batalha.

Infelizmente não há nenhuma solução plausível para limitar o alcance da luz emitida pelo nosso punhado de lasers. Não dá pra limitar a luz (ainda), a não ser, talvez com um buraco negro. Buracos negros possuem uma força gravitacional tão intensa que conseguem puxar até a luz e colocar um mini-buraco negro no punhal do sabre talvez venha a ser uma solução para trazer a luz do laser de volta.

Porém, considerando que a luz também é disparada a partir do punhal, talvez o laser nem tivesse força para se extender por alguns centímetros e seja imediatamente sugado pelo buraco negro. Para um sabre de laser caseiro, como o nosso, uma solução talvez seja prender um buraco negro na extremidade de um cabo de vassoura e manter o punhal com o emissor de laser preso na outra extremidade; quando a luz é emitida, ela é sugada pelo buraco negro na ponta, perdendo aquele efeito legal de sabre retrátil, mas mantendo uma aparência bem legal. Fatalmente, o buraco negro acabaria por sugar também os jedis e todo o ambiente em volta, mas seria um efeito bem legal durante os centésimos de segundos que a idéia funcionasse.

sabre_buraconegro

O lado metal da força

Outra característica da luz é que ela não oferece resistência à própria luz. Isso é um problema quando queremos criar aqueles duelos de sabre legais dos filmes, mas é um alívio para todas as outras situações da humanidade.

Para proporcionar duelos plasticamente elegantes e igualmente mortais com nossos amiguinhos do colégio, uma nova abordagem de sabres precisava ser elaborada. Partindo daquele conceito de sabres de brinquedo aonde cilindros de plástico se encaixam uns nos outros e se recolhem no punhal, é possível elaborar uma arma digna de Star Wars. Aplicando uma quantidade ridícula de energia no sabre, é possível fazê-lo começar a liberar fótons e talvez até radiação gama, brilhando numa determinada cor até ficar com aquela aparência de sabre de luz.

Evidentemente que plástico não seria o componente ideal. O brilho começa ser emitido a partir de cerca de 1500°C, com a variação de cor, dependendo da temperatura atingida pelo sabre: [7]Balanço de cores https://pt.wikipedia.org/wiki/Balan%C3%A7o_de_cores

color_balance

Quando um metal é aquecido, seus átomos começam a receber energia. Os elétrons menos energéticos passarão, em forma de onda, para um nível mais energético. Mas ele não consegue se manter por muito tempo nesse nível mais alto e tende a logo retornar ao nível anterior. Para isso, ele deve perder parte da energia que absorveu e ele faz isso em forma de uma onda eletromagnética de determinada freqüência. Quanto mais quente o metal, menor o comprimento da onda desprendida e mais distante do vermelho será a luz gerada pelo sabre. Pelo menos no que diz respeito às cores dos sabres, juntar-se ao lado negro da força parece ser o caminho mais fácil.

Os elementos químicos com os maiores pontos de fusão achados na Terra são o tungstênio (3422ºC) ou o carbono (3527ºC), porém ambos derreteriam antes de chegar na cor azul. Ou seja: só os Sith podem fazer sabres por aqui. Ainda assim seria possível criar sabres sólidos e brilhantes e que certamente cauterizariam seu amiguinho conforme você cortasse o braço dele.

O problema é que o metal também seria rapidamente consumido e o punhal seria provavelmente derretido com tanta energia.

Mesmo sem os efeitos de sabres batendo uns nos outros, lasers cortadores de corpos parecem mais divertidos do que briga com metal semi-derretido. Sem contar que me atrai muito a idéia de uma arma tão mortal, mas que possa ser vencida com um espelho.

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nRT

Velocidade Máxima Mínima

Uma recente decisão da prefeitura de São Paulo desencadeou uma discussão mais política do que científica. A diminuição da velocidade das marginais fez muitos defensores políticos do prefeito tranqüilão irem em busca de justificativas para comprovar a eficácia da medida, em uma atitude extremamente contra-científica, aonde se tem um resultado final e busca-se os experimentos para chegar até ele.

Alguns anos atrás, Doug McDonald, secretário de transporte da cidade de Washington, saiu em uma empreitada parecida, usando arroz e um funil para demonstrar que a diminuição de velocidade faz sentido, num experimento que foi bastante compartilhado. Nele, Doug usa um funil para representar a rodovia e um punhado de arroz como os carros.

Doug McDonald, porém, é formado em direito. É evidente para engenheiros e a turma de exatas que arroz só serve para comer, secar aparelhos eletrônicos e para os formandos em ciências sociais escreverem nomes em grãos nas praias. Doug não está diminuindo a velocidade da via - todos os grãos são movidos pela mesma força de aceleração - mas sim diminuindo o fluxo de entrada. Evidentemente, um fluxo controlado e constante apresenta melhores resultados em situação de gargalo, como qualquer pessoa que já tentou virar uma garrafa de cerveja pode concluir.

Diminuir a velocidade dos carros aumenta a densidade da via. Isso porque um carro a 90km/h precisa de 37m para frear a zero. Levando em conta o tempo de reação do motorista - um ser humano médio que não está acessando nudes no Snapchat - a distância média necessária para o carro da frente passa a ser, no mínimo, 62m. Caso a velocidade seja de 60km/h, essa distância diminui para 42m. Com menor distância entre os carros, maior a quantidade deles na via. Mais carros na via, porém, não significa necessariamente uma melhor fluidez.

Para tirar a prova, decidi construir meu próprio simulador de trânsito, com prostitutas e blackjack:
http://nrt.paulovelho.com.br/play/transito/

Cada pixel na tela representa 1,25m. De forma a facilitar o desenvolvimento, apenas três velocidades são calculadas: 30km/h, 60km/h e 90km/h. A distância entre os carros também foi calculada de acordo com a velocidade, sendo de 25m, 50m e 75m respectivamente

O primeiro teste foi feito em condições ideais de trânsito: todos os carros circulando na velocidade máxima permitida da via, respeitando as distâncias, cada um em sua respectiva faixa, com o respectivo amor da vida de cada motorista ocupando o banco do passageiro, em uma quinta-feira, véspera de feriado, saindo do trabalho. Com um fluxo de 80% e a 90km/h, passaram pela via 139 carros. A 60km/h, foram 142 carros. Repetindo o teste, os resultados foram muito parecidos. Primeira surpresa.

A explicação é a forma como o fluxo foi calculado: 100% seriam todos os carros na pista, respeitando a distância ideal entre eles, de acordo com a velocidade. Assim o mesmo fluxo representa uma quantidade maior de carros em menor velocidade. Mesmo com uma mesma quantidade de carros passando na via, cada carro, individualmente, demora mais para fazer o percurso com uma velocidade mais baixa (evidentemente). Apesar de aguentar uma densidade maior, a diminuição da velocidade máxima não representa um ganho global considerável, pelo menos em um mundo ideal.

simulador

Mas não vivemos em um mundo ideal: ganhamos menos do que gostaríamos, pesamos mais do que devíamos, nunca estaremos próximos o suficiente da Scarlett Johansson e há trânsito em nossas ruas. Misterioso e incompreensível trânsito por excesso de carros.

O primeiro ponto a ser considerado é: nem todo mundo anda na velocidade máxima da via. Um carro mais lento pode ser o suficiente para causar um gargalo na pista para um motorista impaciente que se esforça para andar o mais rápido possível. No simulador desenvolvido, isso foi facilmente implementado adicionando uma probabilidade do novo carro na pista ser mais lento, variando de acordo com a faixa que ele é adicionado: faixas mais à direita têm mais probabilidade de veículos lentos, tal qual devia ocorrer na vida real.

Mesmo se não houvessem esses veículos mais lentos, o trânsito por fluxo excessivo ainda pode ocorrer graças às chamadas “Shockwave Jams”, que seria um nome muito legal de uma banda de rock. Quando diversos motoristas tentam seguir uma determinada velocidade, mantendo uma determinada distância entre eles, fatalmente, em algum momento uma distração causará uma pequena desnecessária freada em algum deles. Pode ser um espirro, uma chamada no celular ou um pavão que pula em frente ao carro (aconteceu com meu professor de geografia). Essa pequena diminuição causa uma diminuição levemente maior no carro de trás que, por sua vez, propaga para os carros vindouros, espalhando a onda no sentido contrário da via até que, se houver fluxo constante o suficiente, ocasionará em uma parada completa. [1]Shockwave Jams: http://math.mit.edu/projects/traffic/
https://www.newscientist.com/article/dn13402-shockwave-traffic-jam-recreated-for-first-time/

O trânsito causa veículos mais lentos, mas veículos mais lentos não necessariamente causam menos trânsito. Os experimentos de criação de trânsito foram provados a meros 30km/h, seja por universidades japonesas, seja pelos Mythbusters. Em um estudo pela universidade de Stuttgart, na Alemanha [2]Experimental Features of Self-Organization in Traffic Flow: http://journals.aps.org/prl/abstract/10.1103/PhysRevLett.81.3797
, foi feita uma análise da quantidade de trânsito em uma rodovia. Os dados apontam que a faixa da esquerda foi a que apresentou a menor quantidade de trânsito - na Alemanha (e também aqui, teoricamente), as faixas mais à esquerda são destinadas aos carros mais rápidos.

as faixas da esquerda, de velocidades maiores foram as que apresentaram menos trânsito

as faixas da esquerda, de velocidades maiores foram as que apresentaram menos trânsito

O congestionamento é mais dependente do fluxo da via do que da velocidade dos carros; e vias com menor velocidade suportam uma maior quantidade de carros para o mesmo fluxo percentual, dando a idéia de que a diminuição é algo vantajoso. Porém, um alto fluxo resulta naturalmente em uma diminuição da velocidade, sem a necessidade de uma imposição de limites.

Se todos os 8 milhões de automóveis da cidade de São Paulo saíssem ao mesmo de casa e tentassem “entrar” nos 17 mil quilômetros de ruas da cidade (considerando uma média de quatro faixas de rolagem por rua), teríamos pouco mais de 117 automóveis por quilômetro de faixa de rolagem, o que impediria de termos uma velocidade média superior a 8km/h - comprovado pelos filmes de catástrofe e vésperas de carnaval, onde todo mundo tenta fugir da cidade ao mesmo tempo e acaba parado na estrada sem conseguir se mover. Mesmo se apenas 30% dos veículos de São Paulo saíssem na rua durante o horário de pico, a velocidade média não seria superior a 50km/h.

Antes de sair postando textão no facebook “toma essa petralhas”, há duas vantagens em uma diminuição de velocidade nas vias. A primeira - e um tanto óbvia - é a diminuição de acidentes. Obviamente, carros mais lentos respondem mais rápido e causam menos acidentes. [3]Departamento de planejamento da cidade de Helsink: http://www.trafikdage.dk/td/papers/papers04/Trafikdage-2004-339.pdf (cuidado: PDF) O maior ganho é na diminuição de atropelamentos, porém uma via como a marginal não deveria esperar o tráfego de pedestres, apesar de estar constantemente apinhada de vendedores de pipoca e trombadinhas bem-treinados.

A outra situação aonde a redução da velocidade máxima da pista influencia na diminuição do trânsito são em casos de gargalos.

Na tese defendida em 2005 pelo professor José Roberto de Godoy [4]Professor José Roberto de Godoy: https://uspdigital.usp.br/tycho/curriculoLattesMostrar?codpes=954679, usando teoria das filas e o software de simulação ARENA (muito melhor e mais acurado do que o meu, obviamente), foi comprovado que uma menor velocidade é capaz de gerar menos congestionamento [5]Controle de Congestionamento Veicular: http://www.ewh.ieee.org/reg/9/etrans/ieee/issues/vol04/vol4issue1March2006/04Castrucci.htm.

O motivo é simples: os carros demoram mais para chegar ao gargalo, causando uma diminuição no fluxo. Alto fluxo é o principal problema dos gargalos, como ficou evidente em outubro, na China, em um congestionamento causado por um gargalo em uma rodovia que diminuía suas 50 faixas (porra, China!) para apenas 20, deixando motoristas presos no trânsito por até 5 dias. [6]Congestionamentos na China:
http://www.dailymail.co.uk/news/peoplesdaily/article-3263440/Thousands-motorists-stranded-Beijing-motorway-incredible-50-lane-traffic-jam-week-long-national-holiday-wraps-up.html
http://gizmodo.com/heres-the-physics-behind-that-insane-chinese-traffic-ja-1735638335

Porra, Haddad!

Porra, Haddad!

Tomando por base um percurso comum na cidade de São Paulo: As marginais entre a ponte Nova do Morumbi e a ponte das Bandeiras, no sentido sul-norte/oeste-leste - trecho cuidadosamente escolhido simplesmente por ser o caminho que eu costumava percorrer quando saía do trabalho. Na via expressa, há 4 gargalos causados por redução de faixas. O trânsito nas marginais se beneficia com a redução de velocidade especialmente nesses pontos, uma vez que os carros demoram mais para chegar nos trechos problemáticos (e o fluxo é, conseqüentemente, menor).

Mapa de Gargalos da Marginal

Mapa de Gargalos da Marginal

Um outro motivo que a diminuição da velocidade causa menor trânsito é que ela torna as marginais uma opção menos atrativa para se transitar entre dois pontos. Se antes, valia a pena para o motorista perder um pouco de tempo para ir de uma região central às pistas expressas da marginal para poder andar numa velocidade maior - que compensaria o tempo gasto nesse percurso, agora essa via se torna menos atraente, uma vez que o ganho de velocidade nela é pouco vantajoso. Assim, pode ser que a diminuição da velocidade nas marginais cause realmente uma diminuição do congestionamento naquela via, porém pode acabar acarretando também em um aumento no trânsito de vias paralelas ou alternativas.

A solução talvez fosse uma velocidade máxima variável: uma velocidade menor em um horário comercial extendido e velocidade maior nos horários que a via estivesse menos cheia. Ou então, aproveitar que a marginal possui mais de uma via e separar o trânsito: quem for a favor da diminuição de velocidade, que use a via local.

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nRT

A whole new world

“Alladin” foi o primeiro filme que fui levado a ver no cinema. Eram meados de 1992 e minha falecida tia-avó levou a mim e a meu irmão no antigo cinema da Galeria Olido, no centro de São Paulo.

Na época eu fiquei maravilhado com o personagem do gênio. Eu não queria ter meus desejos realizados, queria só ser amigo daquela criatura azul, engraçada, cheia de poderes e piadas inapropriadas (mas eu nunca tive um amigo assim).

Com o tempo, depois de perder horas preso em engarrafamentos no caótico trânsito da cidade, é que se percebe a utilidade que seria um tapete voador. Não há um porta-malas espaçoso, não pega rádio FM, em dias de chuva é desconfortável, mas é um cacete de um tapete voador veloz e fácil de estacionar.

O tapete tem o ápice de sua participação atuando como wingman do Alladin, quando o personagem principal faz uma visita totalmente invasiva à torre da princesa. Alladin leva um fora, mas a princesa volta atrás quando ele a convida pra dar um rolê no tapete voador, ensinando aos miúdos telespectadores que fica difícil a garota te rejeitar se você tiver um veículo legal. Os dois saem voando no tapete, ao som da balada “A whole new world”, vencedora do Oscar de Melhor Canção Original, em um clipe primoroso.

Não me aborrece o fato do tapete ter capacidades levitacionais ou até mesmo uma consciência fofa. Tudo isso pode ser facilmente explicado pelo argumento “mágica”. Mas é difícil ignorar os efeitos exercidos pela atmosfera terrestre nos personagens, tais como temperatura e pressão.

Com o efeito da rápida subida do tapete da altura da cidade, há uma perceptível diminuição da pressão atmosférica. Os ouvidos do Alladin e da Jasmine fatalmente devem ter tampado. Por isso que a Jasmine canta mais alto.

Conforme eles sobem, o ar também vai ficando mais frio - era melhor a princesa ter levado um casaco. Rapidamente o tapete com os dois pombinhos começa a passar por entre as nuvens.

As nuvens pelas quais eles passam são uma mistura de cumulus humilis com stratocumulus. Essas nuvens fofas, com forma de couve-flor parecem cumulus, e o melhor seria eles voarem para longe dali, porque parece que vai chover. Com o passar da noite, a tendência é que esses cumulus que não chegam a se desenvolver vão ficando menos fofos e mais disformes (transformando-se em stratocumulus). De acordo com dados de temperatura e umidade obtidos do aeroporto de Bagdá, a base das nuvens estava em cerca de 6500ft, ou 1,98km.

Nesse ponto, a turbulência deve ter sido alta, devido às correntes ascendentes do interior da nuvem, então o ideal era que os passageiros estivessem com os cintos afivelados. Em outra imprecisão científica, se tentássemos pegar um pedaço fofo de nuvem em nossos braços como os personagens fizeram, só consegueríamos nos encharcar abraçando um gelado pedaço de nada.

Pouco depois, o tapete voa acima das nuvens. A altura das nuvens pode variar imensamente. Algumas Cumulusnimbus podem chegar até 14km de altitude. Nesse ponto, já na entrada da estratosfera terrestre, a temperatura pode chegar até -60°C. [1]NASA: https://ghrc.nsstc.nasa.gov/amsutemps/amsutemps.pl?r=005

O tapete não chegou tão alto, entretanto. Acima das nuvens eles se deparam com um bando de aves migratórias. Aparentemente são cegonhas, que consegue voar a até 5km de altitude. Mesmo abutres dificilmente passariam de 12km. Na estimativa mais pessimista, podemos assumir que os pássaros são grous comuns mal desenhados, que voam a até 10km de altitude. Tanto cegonhas quanto grous podem ser encontrados voando nos céus da arábia, então não há absurdos geográficos biológicos nas hipóteses exploradas.

Acima de 8km, porém, começa a região conhecida como zona da morte. Nessa altura, o oxigênio é insuficiente para sustentar a vida humana por muito tempo. Aqui, seria conveniente o tapete vir com um sistema automático de máscaras de oxigênio. O Monte Everest chega até 8,848km de altitude, então quando passaram pelo Himalaia (eles passaram, já chegaremos a isso), provavelmente tiveram que contornar alguns picos.

I can show you the world

Hold your breath, it gets better

Considerando a hipótese mais provável, de cegonhas voando a aproximadamente 4500m de altitude, a quantidade de oxigênio disponível já poderia chegar até à metade do que é encontrado à nível do mar, então seria melhor eles pararem de cantar pra segurar o fôlego. Também já seria frio o suficiente para o ar atingir temperaturas abaixo de zero. As partes expostas do corpo da princesa, como os ombros e, especialmente, as extremidades, com as pontas dos dedos e pés, estariam imensamente suscetíveis a queimaduras por congelamento. Jasmine talvez nem percebesse as queimaduras, afinal, inicialmente o efeito delas é dormência e escurecimento da pele na área atingida. O frio deve ser intenso não só por conta da altitude e do passeio ser de noite, mas também devido à alta velocidade do tapete.

 

Altíssima velocidade, aliás.

O tapete percorre um longíssimo caminho, partindo de Agrabah, “cidade de mistério e encantamento”. Mas aonde ficaria Agrabah? Dá pra pegar algumas dicas pelo filme: é uma região desértica e, de acordo com o narrador que conta a história no começo da película, próxima ao Rio Jordão. A arquitetura é típica de um país islâmico, provavelmente Irã ou Arábia Saudita. Tendo esses pontos de referência, minha estimativa pessoal vai para algum ponto da Jordânia. Uma distância aproximada será suficiente para obtermos uma estimativa da velocidade atingida pelo tapete.

Pra começar o passeio, eles sobrevoam a Esfinge de Gizeh, no Egito, a cerca de 500km de distância do ponto de partida. Sem tempo de parar, eles mudam a rota e seguem para o que parece ser a acrópole de Atenas, a cerca de 1120km em linha reta. Por fim, eles vão assistir a uma queima de fogos no telhado do que parece ser um templo da Cidade Proibida na China, a pelo menos 7600 km de distância da Grécia, num trajeto que fatalmente deu a volta pelo Himalaia. O percurso total percorrido dificilmente foi menor do que 9300km.

I can show you the world

I can show you the world

O cálculo da velocidade é bem básico: Distância dividido pelo tempo.

Mas quanto tempo eles levaram nesse percurso?

Se formos considerar o tempo da música, eles levaram 2 minutos e meio - o que nos dá uma velocidade de 62km/s ou 223.200km/h. Ajuda o fato deles estarem indo na direção oeste-leste, que é oposta ao sentido de rotação da terra, assim é possível descontar a velocidade do planeta, de 1675km/h, resultando numa velocidade final de 221.525km/h.

O recorde de velocidade que um ser humano já chegou pertence ao trio de astronautas da missão Apollo 10, cuja cápsula atingiu uma velocidade de 39,897km/h em relação à terra. Alladin e Jasmine podem ter viajado em uma velocidade 5538 vezes maior. Considerando que a velocidade do som é de 1225km/h, eles chegaram na China mais de sete horas e meia antes da música que eles mesmo estavam cantando. É uma idéia totalmente inacurada.

 

Em uma aproximação mais realista, podemos considerar que o passeio todo aconteceu durante uma noite, não apenas durante uma música. Tendo em vista que o ponto mais oeste que o tapete chegou foi no Egito, podemos otimizar a viagem o máximo possível, pegando a noite mais longa da região[2]gaisma: http://www.gaisma.com/, aumentando assim o máximo possível o tempo da viagem. Em uma noite de dezembro, é plenamente plausível o sol se pôr às 17h30 e nascer às 06h30, providenciando treze horas de escuridão. Devemos considerar a viagem de ida e volta, imaginando que todo o passeio ocorreu na mesma noite. Como Egito e Jordânia compartilham o mesmo fuso-horário, a volta deve ter ocorrido ainda no período dessas treze horas.

Considerando seis horas e vinte e cinco minutos de viagem, assim eles mantém um diálogo de dez minutos no topo do templo e retornam ainda na mesma noite. Neste caso, por conta da viagem de volta, não é preciso descontarmos a velocidade de rotação da terra. A velocidade atingida pelo tapete seria de 1453 km/h. O corpo humano é capaz de suportar altas velocidades supreendentemente bem; nosso problema é com a aceleração. A maioria das pessoas costuma perder a consciência entre 4 e 5 Gs de aceleração. [3]Gizmodo: http://gizmodo.uol.com.br/por-que-o-corpo-humano-nao-consegue-suportar-aceleracoes-bruscas/ Mas mesmo se o tapete acelerasse a 9,806 m/s^2 (ou 1G), ele levaria apenas 41 segundos para atingir os 1453 km/h, porém ainda mais lento que a aceleração de um carro de Fórmula 1.

Nessa velocidade, também é plausível começar a levar em consideração o atrito do ar, variável tão desprezada por vestibulandos e engenheiros. O corpo humano não é uma forma devidamente aerodinâmica, nem mesmo a Fernanda Paes Leme. Na altíssima velocidade do tapete, a resistência do ar sobre os passageiros pode significar uma força de quase 2000kg, o equivalente a oito tigres da princesa exercendo um peso contrário ao movimento exercido. Espero que eles tenham segurado firmemente no tapete

Pela altitude atingida, é seguro dizer que o tapete atingiu a velocidade de 1.25 mach; enorme velocidade, mas muito mais coerente, plausível até mesmo para alguns aviões de passageiros supersônicos, como os da companhia Aerion[4]aerion supersonic - http://www.aerionsupersonic.com/, que não patrocina este post, mas devia ter como slogan “Conquiste sua própria Jasmine”.

...ou então podemos levar em consideração aquela teoria de que toda vez que um casal canta um dueto em um desenho da Disney, eles estão fazendo sexo. Aí a balada e o passeio seriam só uma figura de linguagem para representar que Alladin levou a princesa às nuvens. Mas essa seria uma leitura muito resumida. Melhor reservá-la ao pessoal de humanas.

Fontes e referências   [ + ]